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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O meu rio é Douro

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À sua sombra, feliz, cresci, com a sua cor m'encantei.
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Douro veste o entre-margens, pranteado de raça e lei.
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Quem um dia o beijou entende,
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mesmo à entrada do cabedelo,
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que só prova amor perene
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o que o amarra, sem tê-lo.
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Mais Haicais

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Os Haicais são poemas de três versos que, no rigor das regras originais, devem ter 17 sílabas, cinco no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro. São reportados no presente e normalmente enquadram, para além dos sentimentos, a natureza nas estações do ano. Aliás, a sua organização básica assenta nas quatro estações, acrescidas do Natal.
Mas é normal e aceitável que estas regras não sejam adoptadas pelos bárbaros estrangeiros, que os tomaram como seus (ou seja, nós, os ocidentais). Importa manter, isso sim, o uso curto da palavra e a estrutura geral.
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Depois de um primeiro assomo, sem transpiração, eis outro, mais trabalhado.
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Todas as noites do ano
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Na longa madrugada,
resta no leito uma confortável quentura.
É a da soma dos corpos.
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Ralos trauteiam canções
que nos embalam no sono dos sonhos,
até o silêncio acordar.
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Leve lençol nos afaga.
O toque mais afasta que demanda
a companhia prezada.
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As castanhas desassossegam
as vontades adormecidas, repousadas, serenas.
Assim Eros se alimenta.
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sábado, 22 de novembro de 2008

Aprendizagens aceleradas

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Provavelmente, o haicai será o único poema que me atrevo a subscrever. Porque é simples e capaz de dizer tudo, em poucas palavras. Aqui vão dois ou três que me/te explicam:
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Exposição
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Como uma instalação,
exposição é o que não era.
No natal, expões-te?
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Tempo frio
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De dia, sob o sol, aqueço.
Mas a noite chega depressa, fria, e
A minha, agora, mora em casa.
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Ter e não ter
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O rio cresce, com a chuva,
como o meu prazer com a tua companhia.
Quando não, secam.
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Poema dedicado
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Escrevo um poema numa tela
Como se sentisse as cores e a textura.
É para ti que o faço.
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São poemas que se podem traduzir. Falam mais de ti que de mim, são do tempo que vivemos, poupam nas palavras e explodem no sentido. São, acima de tudo, adaptáveis.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Eça

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Revisito, por estes dias, a Cidade e as Serras. Para os amantes, aqui vai um pequeno trecho, que me agrada particularmente:
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"... e um moço de barba cor de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço, quando Madame Verghane se ergueu do sofá onde conversava com um velho (...), e avançou, deslizou no tapete, pequena e nédia, na sua copiosa cauda de veludo verde-escuro."
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Se não gostaram, paciência. Eu adoro.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A obra desvendada

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Na tela branca, um traço, um fio, moldou
um retrato do que sinto, amo e sou.
O lugar, quente e privado, flutua no cordame.
Reflexos de luzes, no espelho líquido ondulado,
dobram a quietude, em grande cumplicidade.
Tabuleiro, arco, pilar. Colina que se esconde
nas sombras da hora tardia. É aí, no cais onde
tudo aconteceu. Feliz, pintei. Eis a verdade!
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Dama Teresa de Carvalhais
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O despertar da perda

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Vem a noite, sorrateira, vem cansada.
Vem a noiva, um polícia, um gato negro,
cada um por sua vez, como num quadro
desenhado por mão leve e repousada.
Nuvens deslizam, desmaiadas e barrentas
na luz cálida, sensatamente calada
que se move como as vidas, curtas, lentas,
numa curva da avenida larga e fechada.
As paredes, descoradas, são tristezas
que aí estão, sem apelo. Já as mesas,
que pontilham as praças deslumbrantes,
São esgares de pontadas lancinantes.
No negro colorido do sofrido querer
que a alma arrasta neste mundo de perder,
todos se sentem assim, quase a morrer.
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Mestre Carvalho Negral....

sábado, 1 de novembro de 2008

Outro, que trago. Seleccionado, neste tempo.

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Diálogo dos sentidos
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Numa onda de emoções naufraguei, sentida,
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Na estonteante e certeira chicotada. M’enlevo,
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Quebrada. Quero muito, aspiro tanto, dividida.
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Oh sereno, seguro, suportável porto. Devo?
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Tu, se conheces as virtudes certas, sussurra
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Uma resposta, uma certeza. Sopra, murmura.
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Nada se compara, se afirma. Nada se diz, falando.
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Dividida, és razão que comanda o coração, talvez.
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Olha para ti, de olhos fechados, sempre espreitando
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O mundo só teu. Viaja na emoção, por uma só vez
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E pesa, sem pesares, o castelo a edificar, o futuro.
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Depois, dá um passo, outro a seguir. Ergue o muro!
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Sentida, me enlevo, dividida.
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Devo? Sussurra, murmura ...
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Falando, talvez. Espreitando, por uma só vez
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O futuro, ergue o muro!
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Dama Teresa de Carvalhais e Mestre Carvalho Negral....
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sábado, 25 de outubro de 2008

O primeiro doutros que trarei

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A liberdade do sonho
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Serena idade, que me descansas a alma, de perdição,
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Como se a vida repousasse por momentos; a mágoa
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da vontade reprimida, em leves penas descola e voa.
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Nada me enleva, me toca, me sustenta a noite aberta
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à imagem que povoa o pensamento da mulher certa.
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Mulher que em mim habita, sem rodeios, o coração.
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Quero estar, sem cá ficar. Poder ser, sem tal querer.
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Partir do mundo, sem sair, com posses plenas e vazias.
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Viver o todo, pela parte do pedaço que é apenas um.
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Assim sorvendo o fumado amor carnudo, copo de rum
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Na cana proibida das horas esquecidas, negras e frias.
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Aí, nessa praça que é só minha, podes ficar, amar e ser.
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Mestre Carvalho Negral....
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sábado, 3 de maio de 2008

Peyton Place

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Em miúdo, lia de tudo. Passava horas a ler (sobretudo as nocturnas). Devorava livros. Em rigor, não lia, voava pelas palavras, em busca do fim. Os escritores americanos e russos eram os preferidos. Li Gorki, Tolstoi, Steinbeck, Falkner, Zola e Lampedusa. Mas também li Robbins, Wallace, para além dos policiais e de ficção científica, que adorava.
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Não me lembro da autora (acho que era uma) de Peyton Place e Regresso a Peyton Place.
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Lembro que a qualidade da escrita não era relevante. Mas tratava de algo que nos incendiava, literalmente.
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Para perceber melhor o que me mais entusiasmou, nesse tempo, pesquisei na Net, e encontrei isto:
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Hypocrisy, social inequities, and class privilege are recurring themes in a tale that includes incest, abortion, adultery, lust and murder. Peyton Place has become an expression used to describe any place with sordid secrets.
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Bom, se isto não é um caldinho de coisas boas, não sei o que será …
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Já agora, a referida autora (que a Net serve, também, para estas coisas):
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Grace Metalious (September 8, 1924February 25, 1964) was an American author, best known for the controversial novel Peyton Place.
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She was born into poverty and a broken home as Marie Grace de Repentigny in the mill town of Manchester, New Hampshire. Blessed with the gift of imagination, she was driven to write from an early age. After graduating from Manchester Central High School, she married George Metalious in 1943, became a housewife and mother, lived in near squalor — and continued to write.
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In 1956, she captured the attention of an editor with Peyton Place, which became publishing's second "blockbuster" (following Gone with the Wind in 1936). Reviled by the clergy and dismissed by most critics as "trash," it nevertheless remained on the New York Times bestseller list for more than a year and became an international phenomenon. The dark secrets of a small New England town made juicy reading for millions worldwide. Peyton Place appears to have been a combination of Gilmanton, New Hampshire, the village where she lived (and which resented notoriety), Laconia, New Hampshire, the only nearby town of comparable size to Peyton Place and site of Grace's favorite bar, and Alton, New Hampshire, the town where a few years previously a daughter had murdered her incestuous abusive father. Hollywood lost no time in cashing in on the book's success — a year after its publication, Peyton Place was a major box office hit.
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Metalious died of alcoholism on February 25, 1964. "If I had to do it over again," she once remarked, "it would be easier to be poor." She is buried in Smith Meeting House Cemetery in Gilmanton, New Hampshire.
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Se trago este livro à colação, neste momento, isso resulta do momento que vivo e da memória que me assalta. Mas a memória engana-nos tanto … Ah, e ler é um prazer ... indescritível!.
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sábado, 23 de fevereiro de 2008

Os termos próximos, mais uma vez

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Premissa: o que eu aqui escrevo não resulta de qualquer pesquisa feita. Li, não sei onde, que essa coisa de fazer pesquisa era uma mariquice. Ora, eu não me considero mariquinhas. Também, convenhamos, para estas divagações, não preciso de fazer isso.
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Hoje viro-me para os idiotas, os estúpidos e os cretinos. Pensava que eram cada vez menos, mas mudei de opinião. Desde há uns tempos que os vejo crescer, em número e em obras. Basta apreciar a produção legislativa mais recente. Eles andam aí ...
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Os idiotas sabem pouco, e o pouco que sabem não lhes faz grande jeito. Elaboram coisas simples e sem nexo. Não fazem ideia do que estão a fazer - não sabem, sequer, se vai ser bom ou mau, útil ou inútil, adequado ou nem por isso. Fazem porque lhes disseram para fazer. Está feito. Agora, há que passar para outra coisa qualquer. A anterior já está esquecida. Um bom exemplo está no combate à corrupção. Fazem uma lei em que se determina que, no final do mandato, se deve ver como estão os rendimentos dos políticos. Isso chega. É idiota pensar assim, mas não há nada a fazer. Ou a análise feita ao financiamento da Somague ao PSD. Aconteceu. Temos que nos preocupar em evitar que aconteça de novo. Que parte? Ora, o ficarmos a saber que aconteceu. O melhor era ninguém saber. Se calhar, uma auditoria ao que aconteceu em 2002 resolve. Vamos a isso. Percebem o que quero dizer? Idiotas!
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Os estúpidos podem ser tão ignorantes como os idiotas, mas não são tão básicos. Normalmente, quando fazem uma estupidez (que é o que os estúpidos fazem), tomam conhecimento disso. Até dizem: que estupidez! Mas há uma particularidade nos estúpidos actuais. Antigamente, quando se fazia uma estupidez, isso não era motivo de orgulho nem a estupidez feita era para manter. Agora, é. Por exemplo, quem decidiu que, para combater o absentismo dos Alunos nas Escolas, uma prova de recuperação (exame) no regresso às aulas era a solução, agiu estupidamente. Já deve ter visto a estupidez. Mas agrada-lhe. Já agora, vamos lá ver como isto vai ser, na prática. depois de ver, faz uma de duas coisas: mantém tudo, se isso não o afectar muito, muda no caso contrário. Não pela estupidez, antes pelo que vai sofrer.
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Os cretinos são mais refinados. Sabem muito, podem agir bem, mas preferem não o fazer. Actuam erradamente por convicção. Por vezes, nem notam a cretinice que fazem, mas só porque estão distraídos. Mas, na maior parte dos casos, fazem-no com orgulho. Até sorriem. Dizem, com um ar de satisfação: isto não tem pés nem cabeça, mas vai ser uma reinação! Não consigo arranjar exemplos para esta realidade. Não por não existirem. Pelo contrário. São tantas as medidas, os actos cretinos, que destacar um seria uma injustiça para os restantes. E uma cretinice. Coisa que eu (ainda) não faço. Mas daqui a algum tempo ....
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Uma força da humanidade

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Vivemos, recentemente, um período de euforia ligado ao rugby, sobretudo em função de um apuramento histórico para o mundial da modalidade. Os “Lobos”, forma como foram apelidados os jogadores da selecção nacional, nem sequer tiveram um desempenho brilhante nesta fase (tudo derrotas), mas a satisfação continuou a dominar as gentes lusas. Se não serviu para muito mais, permitiu-me recordar um excepcional ser humano, jogador na década de 80XX, que conheci aquando do cumprimento do SMO (Serviço Militar Obrigatório), em Mafra.
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Em meados dessa década, no Convento de Mafra, na parte ocupada pelo Exército, por volta do mês de Março, assentou praça (ou seja, deu entrada no Exército, para servir a pátria) um grupo de mancebos (os que, pela primeira vez, eram incorporados) que seria muito similar a outros que também ali começaram a aprender a arte da guerra. Não os distinguia o cabelo (que todos rapavam, forma excelente de nivelar as personalidades, como vim a constatar), a roupa envergada (verdes e castanhos por todo o lado) ou o aprumo (que, rápida e uniformemente, todos atingiam); se algo os diferenciava, centrava-se no tipo ou qualidades das pessoas, quer nas que instruíam, quer nos aprendizes. Não tenho dúvidas que outros foram marcantes, noutras épocas, mais ou menos remotas. Mas, neste tempo concreto, MP apartava este conjunto de jovens mais ou menos maduros dos mais que se possam invocar.
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MP assumia cerca de 2 metros de altura, ombros largos que triangulavam com uma cintura seca e limpa, onde os extremos da comida ou da cerveja ainda não tinham feito mossa. Capitaneava a selecção nacional de rugby e contribuía para uma época de sucessos mais ou menos relevantes, na cena da competição internacional.
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A sua força era mítica. Todos ficavam espantados com a quantidade de elevações que contabilizava na trave fixa (dezenas delas, levando o queixo a tocar na barra horizontal, tarefa sempre difícil aos que pesavam, como ele, mais de 100 quilos), nas flexões perfeitas, nos abdominais ritmados, em todas as tarefas que solicitavam o uso dos músculos. Mais tarde, aquando dos testes de terreno para escolha de oficiais e sargentos, acartava com tudo o que fosse peso, para ajudar à sua superação. Como não podia deixar de ser, acabou sargento).
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As topográficas (saídas pelas tapadas, fosse a militar, fosse a real), sobretudo as nocturnas, eram bem mais acessíveis para aqueles que conviviam, de perto, com o MP. Saíamos cheios de genica (que a vontade nunca era significativa), com tudo às costas: arma, mochila com equipamento e botas suplentes, farda de trabalho, capacete de ferro, enfim, uns largos quilos de peso que somavam aos do corpo e acabavam por nos derrear, na parte final da caminhada.
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Era aí que surgia o MP. Quando as forças nos abandonavam, quando a vontade era lançar tudo, nós inclusive, ao chão e por lá ficar, ele vinha, pegava na arma de um, de dois, de três ou mais camaradas, ajeitava-as o melhor possível junto ao seu corpo, pegava em dois parceiros, dos mais desfalecidos, encaixava-os debaixo dos braços, permitia ainda que mais dois ou três se lhe atrelassem o melhor que podiam e, muitas horas depois da partida, reentrava no quartel.
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Na parada (local onde as tropas desfilavam, nos dias de exibição), largava a “carga” e, com um sorriso enorme, gritava para os instrutores: “já acabou? Tão cedo? Tão depressa? Isto foi uma autêntica passeata!”
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Nunca falhava. Por causa disso, ainda dávamos uma dezena de voltas à parada, mais a arrastar os pés que a caminhar. O que nos aguentava era o seu bom humor, nos encorajamentos que lançava: “vá lá, vá lá. Sempre é melhor andar aqui fora, ao ar livre, que ir fazer companhia às pulgas e aos piolhos da camarata! Devem estar geladinhos, coitados, sem o nosso calorzinho …”
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Passou à reserva em pouco tempo. Uma placa de platina num braço chegou para uma Junta Médica livrá-lo da tropa. Pelos vistos, diminuía-o, fisicamente … embora na selecção nacional de rugby (e no seu clube) isso não interessasse nada! Continuou a jogar, numa e noutro, por muitos e longos anos.
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Ser feliz

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Que coisa, escolher este tema nesta altura. Ou decorrerá disso mesmo, do tempo que corre - e como corre! Nas carteiras da primária, para além do buraco do tinteiro de porcelana, o que atraía o meu pensamento centrava-se na figura do meu Professor, alto (enorme mesmo, aos meus olhos), autoritário (o que, nos anos seguintes, viria a confirmar não ser apenas aparência) e algo "quota" (teria uns inconcebíveis 30 anos, na minha jovem mas assumida convicção). Então a D. Anaísa (ou Ana Ísa, nem sequer conheço a grafia correcta), aí com uns 50 anos, estava praticamente acabada.
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Mas a vida tem destas coisas, não dá tréguas e coloca as coisas nas devidas proporções. De facto, o que acontece é que está socialmente instituído que, aos 50, se começa um novo ciclo, de descida ou de perda, acelerada, com o imperativo do aproveitamento total do tempo, que passa a ser o tesouro maior de cada um. Mas isso é uma visão conceptual e limitada às convenções. Esse tempo existe, só que, muitas vezes, está para lá, ou para cá, desse número gordo (o 5 impede-me de lhe chamar redondo, conforme ensinamentos da minha chefe). Eu, por exemplo, sei que o passei há já uns anos. Agora, sei que nada é diferente do que aconteceu ontem ou, presumivelmente, vai suceder amanhã.
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A questão que coloco está mais voltada para a felicidade gizada como sendo um objectivo que se traçou e para o qual contribuímos com a nossa acção diária, ou seja, trabalhámos muitos anos e muito para podermos ser felizes "depois". Juntar dinheiro, perdendo anos, para atingirmos uma felicidade suprema em escasso tempo.
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Este é um engano comum, repetido, praticado insistentemente por muitos, demasiados. O que mais dói é a constatação que muitos fazem, quando são atingidos pelo murro da realidade, quando a certeza da inatingibilidade do objectivo se revela. E dói não pela impossibilidade que se manifesta, mas pela certeza do desperdício da vida passada, em busca duma meta tão inacessível quanto o santo graal. Pior. Enquanto este se apresenta, sempre, como um mito, a construção da felicidade parece perfeitamente possível, ali, ao alcance da mão.
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Vivo momentos de prazer, que pontuam um tempo monótono e rotineiro. É tão gratificante um momento de intenso prazer quanto um longo dia de trabalho? Claro que não, mas sabe melhor quando não é desvalorizado, quando não é submetido a uma miragem de felicidade. Quando vale em função do que se sente e vive, e não do que se sonha. E o dia, assim enquadrado, é fácil de saltar.
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Por isso digo, muitas vezes (não tantas quanto gostaria), que estou encantado. Por isso páro, deixo de fazer algo da rotina diária e parto para outra coisa qualquer, que adoro. Por isso me renovo, na idade que ostento, sem a esquecer; mas também sem a glorificar ou sujeitar, ao construído ou a construir.
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Humores

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Se todos fossem iguais, o mundo era uma sensaboria (palavra que consegue dizer tudo o que queremos, mas só raras vezes encaixa – e consegue dar a entender outras coisas, pelo menos em termos sonoros).
Aceitar a diferença é um passo complicado, até porque nunca estamos no mesmo “comprimento de onda”; mas permite, quase sempre, o que mais se procura num relacionamento – a estabilidade.
Homens e mulheres podem ser diferentes, mas não são tanto quanto isso nem o são por causa disso (apenas). Muito do que somos está na formatação a que estamos sujeitos, enquanto vivemos. Sobretudo o que nos atinge depois de terminada a imaturidade (a boa, a esperada, a que se guarda mais no coração que na memória).
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Somos diferentes, aceitamos isso e, enquanto casais, não apontamos o dedo ao outro por existir – eis a fórmula perfeita.
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A quem pertence, genericamente, a constante mudança de humores, ora bem e feliz, ora triste ou ausente? A tentação primeira aponta, de imediato, para as mulheres. Mas, a ser assim, os homens seriam pessoas constantes na forma de ser e estar. Se é feliz um dia, é-o toda a vida; se amargurado o conhecemos, então …. Parece um pouco redutora, esta visão.
Então elas estarão mais predispostas a essas coisas e os homens não … pode ser, mas tenho sérias dúvidas. O que acontece, na minha opinião, é que temos, todos, elas tanto quanto eles, o mesmo sentir (em função do que nos faz o meio o outro ou, até, o que fazemos a nós próprios); somos diferentes, e muito, é na reacção, na forma como o demonstramos. Ou seja, ele está tão feliz quanto ela, mas nela nota-se mais (isto em termos gerais, é claro). Ela está na fossa, como ele, mas ele consegue, por mecanismos muito simples, passar a ideia que não foi afectado. Ela não consegue. Nunca consegue.
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O segredo dos relacionamentos estáveis (que todos procuram, por muito que o neguem, ninguém é indiferente a esse imperativo social) reside tanto na tentativa dela em “amenizar” as reacções quanto na compreensão da necessidade duma maior exposição de sentimentos, por parte dele.
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O que abala tudo isto é a dureza da vida. Se as coisas já foram vividas e não ultrapassadas, num passado mais ou menos recente, a tentação para a radicalização é enorme. Se ao outro (ele ou ela) já doeu demais, sem ter do par escolhido a resposta que esperava, não estará disponível para novo sofrimento, ainda que o escolhido esteja capaz de reagir (muitas vezes sem ter tempo, sequer, para o tentar fazer).
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Mas a vida não é só dor. Também as horas amargas dão lições, muitas vezes de filosofia, se usarmos o saber do poeta popular. E essas aprendizagens de vida dizem-nos, se escutarmos, que há duas componentes essenciais à estabilidade – o tempo e o som, a paciência e o diálogo, a serenidade da palavra. Sem arremessar, desde logo, projécteis demolidores. Ainda que apeteça.
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Quem disse que não há receitas? O que faltará é contemplação …
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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Bate de vez em quando

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Por vezes, tropeçamos num local, num texto, numa imagem ou numa canção que nos diz mais do que devia ...
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Aconteceu hoje, comigo. A conduzir, na rádio passou uma canção do Sr. Fausto que gostei de relembrar e que, com naturalidade, me fez pensar nas relações que, ano após ano, construo.
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Também eu tenho um fraquinho por ti. E as duas últimas estrofes (é assim que se diz?), são tiros certeiros.
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À falta de vídeo, aqui vai o poema:
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Eu Tenho Um Fraquinho Por Ti
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Eu tenho um fraquinho por ti
tu não me dás atenção
tu não me passas cartão
quando me ponho a teu lado
tremo nervoso de agrado
e meto os pés pelas mãos
tu vais gozando um bocado
a beber vinho tostão
eu com o discurso engasgado
fico a um canto, que arrelia
de toda a cervejaria
onde vais rasgar a noite
se te olho com ternura
olhas-me do alto da burra
que mais parece um açoite
é um susto um arrepio
que me malha em ferro frio.
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Eu tenho um fraquinho por ti
que me vai de lés a lés
tu dás-me sempre com os pés
quando me atiro enamorado
num estilo desajeitado
disfarço em bagaço e café
tu fumas o teu cruzado
e fazes troça, pois é,
já tenho o caldo entornado
esqueces-me da noite p´ro dia
em alegre companhia
de batidas e rodadas
tu ficas nas sete quintas
marimbas, estás-te nas tintas
p´ra que eu ande às três pancadas
basta um toque sedutor
eu cá sou um pinga-amor.
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Eu tenho um fraquinho por ti
que me abrasa o coração
quase me arrasa a razão
a tua risada rasteira
põe-me de rastos, à beira
do enfarte da congestão
encharco-me em chá de cidreira
mofas de mim atiras-te ao chão
zombando à tua maneira
lá fazes a despedida
ao grupo que vai de saída
dos amigos da Trindade
mas no fim da noite, à noitinha,
tu ficas triste e sozinha
à procura de amizade
e como é costume teu
chamas o parvo que sou eu.
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Afino uma voz de tenor
ensaio um ar duro de macho
quando estás na mó de baixo
quero ver-te arrependida
mas numa manobra atrevida
rufia, muito mansinha,
dás-me um beijo e uma turrinha
que me põe num molho num cacho
estremeço com pele de galinha
e gosto de ti trapaceira
da tua piada certeira
do teu aparte final
do teu jeito irreverente
do teu aspecto contente
do teu modo bestial
noutra palavra mais quente
eu tenho um fraquinho por ti.
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Engraçado, ao longo dos anos tive sempre fraquinhos. Foi mudando, por vezes era mais do que um, mas não recordo tempos sem nenhum. Mesmo agora, já repassado, tenho fraquinhos (isso mesmo, plural). Pelo menos, estou vivo ...
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domingo, 28 de outubro de 2007

Paisagem, peixes e memórias

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Só nos últimos anos do gozo das minhas férias escolares, em Celorico, a pesca foi um passatempo assumido, embora tenha que reconhecer que os momentos que lhe dediquei foram, no mínimo, muito agradáveis.
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Pescava com o Manel, Bengalas de apelido, que o herdou porque o pai costumava resolver, as pequenas escaramuças que pelejava, com a frase “olha que te dou uma bengalada”! Bem mais velho do que eu, cedo descobriu os prazeres da natureza, ele que havia nascido no seu meio, em Fontão, e em miúdo havia abalado para o Porto, para trabalhar num banco, sem nunca deixar de sentir que perdia muito, se não regressasse, mal tivesse oportunidade, à terra mãe.
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Dono de uma passada larga, que eu mal acompanhava, embora fosse algo mais alto do que ele, o Manel era uma surpresa para mim, em quase tudo o que fazia. Introvertido, dono de um sorriso malandro que aflorava sempre que nos distraíamos, depois de me conhecer convidou-me a acompanhá-lo numa “pescaria num fundo que tinha descoberto na semana passada, cheiinho de peixes”, como me foi confidenciando. Quando soube que desconhecia, por completo, a arte, logo me introduziu nos seus segredos. Embora adorasse caçar, a pesca não lhe escondia muita coisa.
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Levou-me a sua casa, onde se podia escolher uma cana para o “novato”, como me chamava. Acabado de regressar do Ultramar, onde havia sofrido um acidente complicado, que lhe afectava a respiração, considerava que Celorico era o lugar perfeito para a total recuperação. Acho que nunca vi tanta cana junta. Rudimentares, eram todas “da índia”, a melhor cana da pesca que uma pessoa podia ter, segundo a sua douta opinião.
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Após escolher uma para si e outra para mim, fomos à Corujeira de Baixo, a um canavial, cortar uma mão cheia delas, de vários tamanhos, para eu não precisar de usar as suas, no futuro. Ensinou-me a escolhê-las, a limpá-las da ramagem e a pendurá-las, em local abrigado, para secarem sem entortar. Só no verão seguinte estariam prontas, mas até lá as dele chegavam e sobravam.
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Veio, depois, a difícil aprendizagem de preparar o isco. Boroa molhada em azeite, amassada em pequenas bolas, constituía o primeiro que tinha que fazer (a minha tia franzia o sobrolho, com o destino do seu apreciado azeite). Depois, apanhar moscas, com um gesto rápido da mão, esmagando-lhe a cabeça “para manterem o aspecto de mosca viva, com asas e tudo” (ah, isso está bem, que nos livras dalgumas dessas pestes", dizia ela) - ficava assim pronto outro isco. Numa zona muito húmida, perto de sua casa, estava o terceiro tipo de “atracção fatal” para peixes. As larvas que se banqueteavam com uma sardinha que tinha enterrado alguns dias antes eram os famosos “morcões”, que os habitantes do rio não desdenhavam. Por último, a minhoca, só encontrada em lameiros que ele bem conhecia de outras andanças – as da caça, que lhe serviam para descobrir tudo o que precisava.
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Quanto a linha, anzóis, tensos, bóias e chumbos, ele fornecia “desta vez”. Na próxima, tinha que me desenrascar. Difícil, difícil, era fazer tensos. O chumbo, enroscado na linha quando em fita, ou apertando o fio de pesca no centro da esfera, quando tinha esse formato, ainda ia. Agora dar o nó de pescador no anzol, de forma a ficar seguro e direito, era uma dor de alma!
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Tudo corria bem, nos preparativos. Quando já estava tudo pronto, e a hora da janta se aproximava, veio a notícia menos agradável: sairíamos às 03h30 da manhã, para chegarmos ao Tâmega ao nascer do dia! Convinha ir assim cedo, para voltar antes do aperto do calor. Ah, e convinha levar um bom merendeiro, pois a “fominha ia apertar, ia, ia”!
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Ainda sem me aperceber muito bem no que me tinha metido, às 03h00 levantei-me (os meus tios assistiam à minha proeza com um sorriso largo, eles que começavam a trabalhar, todos os dias, mais ou menos às 05h00, e que estavam fartos de saber o que me custava levantar, de manhã), peguei no merendeiro antes preparado, na cana, na cesta, enfim, em mim mesmo, que bem precisava, e fui ter com um Bengalas já impaciente, ao cruzamento da Boavista.
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Foi uma das coisas que fiz, como adolescente, que jamais esquecerei. A caminhada brutal, de cerca de uma hora, até ao rio Tâmega, ao seu vau mais famoso, onde íamos começar a nossa pescaria; na chegada, uma espectacular raposa que nos esperava, bebendo desconfiada do lado de lá do rio - foi o Manel que ma apontou e me fez sinal para aquietar, para a apreciarmos durante mais tempo; o hipnotizante e sinuoso Tâmega, belíssimo e dono de fama terrível, que dizia que todos os dias tinha que comer algo vivo; corujas, falcões, coelhos e perdizes, a vida a pulular e a pintar a paisagem de pormenores fantásticos.
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Depois de lançar algumas linhas “ao fundo”, bem carregadas de isco e amarradas a arbustos, na margem, para recolher à volta, começamos a pescar à bóia, seguindo a correnteza, parando aqui e ali, se era “um bom pesqueiro”, voltando a seguir, passando de uma margem para a outra, sempre que era possível ou a isso éramos obrigados pelas zonas intransitáveis.
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Aprendi a conhecer e a distinguir os escalos, as vogas e os barbiscos, espécies que dominavam o rio nesse tempo. Mais tarde chegaram as trutas. Hoje, tanto quanto sei, já pouco ou nada por ali se vê. Custos do desenvolvimento, com a poluição a destruir quase tudo … haverá retorno?
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Quanto à pescaria, correu bem. Sorte de principiante, pesquei mais do que o Manel, sendo o último um magnífico exemplar de voga, a pesar mais do que um quilo. Chamei o meu amigo Bengalas e exibi-o, gritando: “olha Manel, o pai deles todos está aqui”.
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Pouco depois chegou a hora de regressarmos. Quando íamos arrancar, depois de retirar mais dois peixinhos dos lançamento ao fundo que havíamos feito, ele, como quem não quer a coisa, bateu na testa, tirou uma voga enorme do seu cesto, bem maior que a minha, e disse: “Já me esquecia, mas quando fiquei para trás, há pouco tempo, naquela curva mais apertada, apanhei o avô. Foi fácil, ouviu dizer que o filho e os netos tinham ido passear e resolveu acompanhá-los!”
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quarta-feira, 18 de abril de 2007

Expectativas e obrigações

Só agora comecei a escrever. Se outra vantagem não houvesse, esta particular forma de comunicar lembra a carta e, sobretudo, o postal do século passado. É engraçado como esta frase se tornou adequada – o século passado está, já, tão distante … tanto quanto o 5 de Outubro de 1910, para os da minha geração. E só passaram meia dúzia de anos ….
Escrever com este cuidado, só agora aconteceu. O que significa que, antes, não era escrita, o que produzia. Era assim uma espécie de obrigação, como quem responde a perguntas, para não se excluir. Escrevia (se era isso) para cumprir com deveres. Sobretudo profissionais.
Aprecio Samarago e entendo a sua postura quanto à dependência da escrita face ao que se tem para dizer e a quem se destina essa mensagem. Tirando o exagero, concordo com a ideia de parar de escrever quando nada temos para dizer ou, tendo algo para transmitir, quando não temos destinatário. O exagero só é perceptível em situações marginais, de génio, como em Pessoa, que não precisa de público - ele próprio, ou as suas múltiplas personalidades, serão suficientes, e as Margaridas do nosso tempo, que descobriram o filão do vácuo, preenchido com a sonoridade das palavras encantadoras.
Isto vem a propósito da forma como respondemos ao voraz apetite dos blogs, e do nosso em particular. A regularidade é essencial. Não exactamente a cronológica, será mais a das expectativas. Mas não pode passar muito tempo sem uma nova publicação. O que nos leva à questão do que temos para dizer. Porque descobri as histórias da vida que me envolveu, no passado, encontrei uma temática que tem sido bem acolhida. O que me conduz aos destinatários. Porque são poucos, não os posso perder. Esta pressão é danada!
Já agora, o que me alimenta não é o que produzo, nem aqueles a quem atinjo, porque não os equaciono quando me lanço na aventura. Mas a resposta, singular ou partilhada, é decisiva.
Sou frequentador assíduo de meia dúzia de espaços deste tipo, onde deixo, muitas vezes, um pequeno comentário. Pode ser que os outros sejam como eu, pode acontecer que esse pequeno gesto seja o dínamo da continuidade. No entanto, concordo com aqueles que me dizem ser necessário ir um pouco mais além. E estou a matutar nisso.
Já agora, um destes dias vou-vos contar dois episódios do meu passado, um ligado ao Carvalho, o outro à minha felicíssima juventude. Mas não hoje. E, reparem, que o prometo como se fosse uma grande novidade! Manias!