domingo, 27 de maio de 2007

Invernos saudosos

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O Inverno, na aldeia minhota, tinha (ainda terá?) duas épocas distintas: de Dezembro a meados de Fevereiro era fechado, com húmido recolhimento e saídas pontuais para responder às necessidades do dia-a-dia, penso para o gado, lenha para o lume, alguma poda serôdia; já a segunda metade tinha outra vivacidade, com as pessoas a sair em cada aberta, a preparar terrenos e sementes, plantar batatas e semear cereais, os primeiros, que produziriam também os primeiros bens terrenos.
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Celorico, no fim do inverno
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O que mais me agradava, nas poucas vezes que ia a Celorico nesta época, entroncava na melancolia da paisagem e na água cristalina, cantando pelas bordas das leiras ou explodindo tumultuosamente do leito da levada, incapaz de penetrar na terra ensopada e regressando às suas origens na primeira oportunidade.
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Também apreciava o batuque do tear, que tinha redobrado trabalho nesta época de pousio, podendo a minha tia Augustinha dedicar-se mais à sua arte dos tecidos, no lugar da lide agrícola, que lhe tomava o tempo quase todo no resto do ano.
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A entrada para o tear, na casa dos meus tios, entretanto vendida.
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A cor das laranjas, palhotas e pouco ou nada doces, já de si pouco atraentes no aspecto, com o negro da terra impregnado na casca, carregado pelo vento e pela chuva, destacavam-se no verde pesado das árvores. Mirravam nos finos dedos das torres que as suportavam, ou melhor, que as largavam com muita regularidade em chão pejado de estrepes, restos da cana do milho que saíam do solo em afiados cortes oblíquos, armadilhas dolorosas para os que, como eu, também neste tempo frio e aguado, andavam descalços por tudo quanto era sítio.
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A única opção existente eram os socos do meu tio, quando eram por si rejeitados face à sua vetustez ou degradação, ou ainda quando esperavam os protectores pedaços de pneu, que evitavam o desgaste precoce mas, ao mesmo tempo, os colocavam na minha trajectória de pesquisa.

Uma das diversões do fim do dia, quando este crescia e clareava, consistia no exercício que o meu tio facultava ao cavalo, para que os músculos se não atrofiassem e a noite de sono fosse mais repousante. Um de nós, normalmente eu, ficava junto da casota do Tejo (sobreviveu, por muitos anos, ao seu ocupante), no intuito de impedir a fuga para sul, ficando o meu tio no lado contrário, no topo da costeira, com o mesmo fito, embora permitindo ao cavalo virar à esquerda e usar um corredor, sem saída, com cerca de duas dezenas de metros de extensão.
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Solto, o cavalo carregava na minha direcção e eu, com uma dezena de anos, levantava os braços, segurando numa bengala e gritando a plenos pulmões para o obrigar a parar. Não era uma questão de medo, era terror puro! Aquela massa brutal virada a mim, em velocidade acelerada, era uma visão terrífica!
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No entanto, o que acontecia era sempre o mesmo. Quando estava a meia dúzia de passos da minha pessoa, o cavalo parava, deslizando no chão e projectando uma enorme quantidade de terra e poeira que se depositavam por todo o meu corpo. Ainda não tinha conseguido recomeçar a respirar, já o animal tinha virado e corria direito ao meu tio, que só levantava os braços no último momento.
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À noite, à mesa, o assunto da conversa entre os meus tio era sempre o mesmo: a cara que eu fazia no momento crucial! Ambos se riam e comentavam que eram dignas de se ver, as caretas que eu fazia.
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Mais a sério, o meu tio comparava, amiudadas vezes, o meu comportamento corajoso (achava ele!) face ao do seu filho mais velho, antes de casar e abalar para Coimbra, onde ainda vive. Ficava no lugar que ora me destinava, no exercício hípico, e o ritual era costumeiro. O meu tio soltava o cavalo e gritava para o filho: ele aí vai, Avelino! Ao que respondia o filho: ele aí vem, meu pai, ele aí vem … e ele lá vai! Porque, em vez de o parar, cautelosamente fugia para o lado, deixando-o passar e ir correr montes e vales, até o meu tio o conseguir resgatar.
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A relação entre o meu primo e os cavalos não foi, nunca, muito íntima. Mas lá diz o povo, em todas as famílias há, quase sempre, quem não saia aos seus.
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terça-feira, 15 de maio de 2007

Um destino diferente

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Chamo-me Danadinho. Fui o quarto filho dos 5 que irromperam, em finais dos anos setenta, quase em simultâneo, num canto da despensa escura e húmida, onde a mamã procurou passar despercebida, acto atávico que não entendia mas que percebeu logo de manhãzinha, quando os patrões, alertados pelos nosso gemidos, nos pegaram, mediram e pesaram, tudo por estimativa.

Foi, aí, dado o primeiro passo para o desmembramento da família, forma única encontrada para garantir a velhice à mamã, que ocupava, havia muito, o lugar primeiro do carinho da família hospedeira.

Com toda a naturalidade, algumas semanas passadas (poucas, muito poucas, na minha perspectiva), em função dos estranhos que nos iam visitando, lá fomos entregues a gente humana diversa, com igual diversidade nas razões da escolha feita, o que carreava a cada um de nós maior ou menor felicidade, no destino traçado.

Tinha um pêlo mais comprido que os outros, com variados tons de cinza, o que me tornava apetecível, face aos maninhos. Tanto quanto sei, fui muito cobiçado e, por sorte, calhou-me na rifa uma família numerosa mas bem formada, onde fiz o meu desmame com o mínimo de sofrimento – a imagem da mamã apagou-se, lenta e serenamente, em poucos dias.

Eles eram 7 (mais do que nós, pois nunca lobriguei o meu progenitor – até pensava, ignorante na minha juventude, que nem existia!):
A mãe Deolinda, que me alimentou (com um biberão nos primeiros tempos e, posteriormente, com restos deliciosos) e sempre cuidou do meu bem estar, de tal forma que, uma vez, abriu-me as goelas à força e, com um alicate, arrancou uma maldita espinha que estava cravada na minha garganta;
O pai Carlos, que pouco ou nada me ligava, o que eu pagava na mesma moeda;
As raparigas, a Linda e a Mariita, que me coçavam as orelhas e alisavam o pelo de forma gostosa e meiga;
E os três rapazes, os dois mais velhos, o Kiel e o Jonas, menos exuberantes, o pequenito bem mais próximo, todos os dias me procurava e afagava. Tenho que ser honesto, gostava muito deste, do Zezito, para criança não me fazia muitas judiarias, mas foi o Kiel que me baptizou e, manias à parte, o meu nome era especial. Dizia ele que, para suceder à dinastia dos Artolas (e houve 3, o Artolas, o Artolas II e o Artolas III, o primeiro sem numeração apenas por não ser expectável a continuação da nomenclatura, tão seguidamente acontecida), só podia ser um danado como eu aparentava ser. Não enganei, foi assim que cresci e vivi.
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Falo deles com nostalgia porque os perdi, ao contrário da evolução natural das coisas – os nossos 10 a 14 anos de vida significam, quase sempre, que nos calha, a nós, desaparecer. Sei que não durei mais do que qualquer um deles, mas eles é que partiram, um dia, mudando de casa e não me levando, como acontecia com outras famílias.

Eu tinha a minha maneira de ser, porventura mais peculiar que os meus congéneres – dormia com os rapazes, de manhã fazia o meu dejejum também com os meninos, mas depois abalava para a minha primeira passeata. A casa tinha quintal, como todas as confinantes, sendo as propriedades separadas por muros de meia altura, que eu transpunha com toda a facilidade. Aliás, era em cima deles que gostava de apanhar sol, um dos meus vícios de miúdo que mantive ao longo da vida.

Por volta do meio-dia e no final da tarde fazia as minhas rondas, com um único objectivo: verificar o que era a paparoca em cada casa. Depois, com naturalidade, aproximava-me daquela que mais me agradava e esperava – havia sempre um pratinho para mim, fosse qual fosse a casa a que me dirigia.

Nunca deixava de visitar a minha família (eles achavam que eu lhes pertencia mas, de facto, eles é que eram meus). No entanto, eram mais as vezes em que apenas cumprimentava a gente e me estendia, para a sesta ou para passar a noite, do que para comer qualquer coisa que fosse.

No dia da mudança, todos se juntaram e, depois de muita choradeira delas e do petiz, lá decidiram que eu ficaria. Afinal, ainda que num tempo onde a publicação de estudos característicos da silly season não acontecia, a minha família percebeu que eu pertencia mais ao lugar do que às pessoas (o que acontece com todos os gatos) e que ficaria bem entregue, com vizinhos tão atenciosos para comigo. Inteligentemente, deixaram que fosse eu a escolher o novo lar – para dormir e receber carinhos, já se vê.

A única recomendação que sobrou foi a que sempre me fizeram, desde a minha chegada, ou seja, para continuar a não me aproximar dos pombos do Violeiro, disseminador de veneno que nos era destinado, só porque apreciávamos as suas tenras criaturas. Coisas de velho, que não atingiam sábios como eu. Afinal, ainda cá andava no 25 de Abril!
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domingo, 6 de maio de 2007

In Illo Tempore


Adorava dormir em colchão de palha, entre frescos e ásperos lençóis de linho, no quarto do fundo, a que se chegava passando pelo da frente, o dos meus tios, detentor de uma sacada repleta de vasos.
A casa era minhota em toda a sua traça. O espaço de habitação situava-se no andar de cima, com duas entradas servidas por íngreme escada, de degraus incertos e largos.
No primeiro patamar, de fronte para o quinteiro, acedia-se à cozinha, ampla e escura, sem janelas e com chaminé diminuta, que retinha mais do que libertava o fumo da lareira. Se servia na perfeição para defumar os enchidos e presuntos, também contribuiu fortemente para o grave problema de pulmões que atormentou o meu tio, praticamente até à sua morte.
Mais alguns degraus e assumia a entrada da sala de jantar, espaçosa e clara, com tecto de forro, ondulado e picotado por inúmeras marcas, que o tempo consolidou. Uma cama, normalmente destinada às visitas inesperadas ou mais consideradas, juntamente com um roupeiro, da mais fina madeira, não destoava, nem nos dias em que se jantava, de facto, ali – raridade muito apreciada, não obstante ser a cozinha bem mais acolhedora, sobretudo nos dias mais frios. Era servida por uma janela, com dois bancos de pedra, frente a frente, que possibilitavam, se essa fosse a vontade, momentos de cumplicidade, reservada aos que aí se enfrentassem.
Ao fundo, os referidos quartos que nos serviam, numa curva apertada que impedia a visão do mais recuado.
O piso inferior tinha cortes, uma por baixo dos quartos, onde normalmente se hospedava um cavalo, com outra interior, ao fundo, para o porco passar o dia. Fechada a porta e tapadas as frinchas com fetos, ficava o espaço livre do incómodo das moscas, donas de picadas tão dolorosas quanto sanguinárias.
Seguia-se a loja, com a caixa do cereal e do milho, as pipas do verde tinto, de sabor peculiar e incomparável, o pipo do vinagre – autêntica pólvora, que me agarrou definitivamente o paladar - a salgadeira, o presunto e as pás penduradas, tudo à volta da urdideira, sarilho enorme na sua função, sendo moldura da passagem quando descansava, fechado. À porta, o galinheiro da noite, no contraforte das escadas, só com uma pequena abertura, que se fechava com umas tábuas de madeira, seguras com cavacos encravados – protecção essencial contra as raposas, que a rede do galinheiro de dia nunca seria capaz de travar.
Logo após as escadas, quem vinha da costeira, ficava o lagar de pedra, duas vezes cheio nos anos de fartura, com a prensa e os utensílios da lavoura. Era aí que ficava o nicho da chave de casa, depositada sempre que todos saíssem, para longe. Doutro modo, a porta ficava ou toda aberta, ou encostada.
Mais uma corte, para acolher os bovinos, quando não havia segundo cavalo, situando-se, por cima e com entrada própria, o tear, onde a minha tia, rainha das tecedeiras de toda a região, construía mantas e cobertas como eu nunca vi, lá ou noutro lugar. Gostava particularmente das mantas de retalhos, que ela criava com maravilhosas combinações de cores e padrões, e das cobertas de linho, com o alvo algodão a desenhar motivos e figuras inesquecíveis. Ah, e as franjas, feitas num tear de bolso, em movimentos repetitivos, cantados por batimentos transformadores do gesto criador num centro de interesse que aprisionava o olhar.
Ficava concluída a casa pelo arrumo da madeira, contíguo ao tear, e, bem lá longe, também de madeira, pouco ortodoxa, mesmo algo insegura, ficava a retrete – nem se podia chamar de maneira diferente ao buraco na tábua, numa casota, com uma porta segura por um arame, uns bons metros para lá do edifício, para o não contaminar.
Os rituais eram deliciosos. Depois do almoço, o meu tio encostava as costas à porta da cozinha e deixava-se escorregar até ficar sentado na soleira, com uma caruma na boca, palitando preguiçosamente os dentes. Era a hora da sesta, sagrada, protectora do calor abrasador do verão minhoto, capaz de calar todos os sons e aplacar a mais ténue brisa.
As ordens eram claras – todos tínhamos que dormir umas duas horas, para fazer a digestão. Por isso, era obrigado a preparar a fuga, antes mesmo de entrar para almoçar. Dirigia-me à corte do cavalo e abria a porta, prendendo o cavalo à manjedoura. Se questionado, dizia que era tempo de ele ter alguma luz, pobre coitado. Até as moscas e os moscardos estavam recolhidos, por causa do calor, que diabo!
A porta, aberta, ficava com o topo ao nível do chão da sacada, logo prendia-a bem à parede, para ficar firme. Quando chegava a hora da sesta, ia até ao quarto e deitava-me. Alguns minutos depois ia à cozinha, pela porta que a ligava à sala, e espreitava o meu tio. Como sempre, já dormitava, acenando com a cabeça para ninguém. Voltava atrás, chegava-me à sacada e, passando o corpo para fora, descia pela porta da corte, correndo de imediato para longe de casa, ao encontro da total liberdade que os campos, as casas, as árvores e os rios da aldeia me dotavam.
Um sorriso meu, enigmático, respondia ao meu tio quando, à noite, com um olhar interrogativo, me dizia não ter percebido a minha saída. Estou convencido que, de facto, nunca conheceu a minha estratégia. Nos últimos anos, nem sequer usava a referida corte, o que muito me facilitou a vida.
Arrependo-me de algumas coisas que fiz. Não desta. Sei que, aos seus olhos, não teve grande importância. Ele sabia bem o quão importantes eram todos os segundos ali passados, para o menino da cidade que ele recebia, ano após ano, de braços abertos.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

O tempo não tem tempo a perder

Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?
Marco Aurélio

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Machos

Era muito novo quando ouvi falar, pela primeira vez, dos resultados da acção do homem na natureza. Todos gabavam o milho híbrido, afirmando que a produção mais que duplicava, se usado em vez do milho comum.

Os lavradores, com a vida dependente de inúmeros factores, produziam milho para consumo e venda, mas não deixavam de guardar parte da colheita como garantia da produção futura, destinada à sementeira da primavera seguinte. Com esta solução, até essa garantia deixava de ser necessária.

O meu tio Ezequiel torcia o nariz a estas modernices. Sendo uma pessoa de convicções fortes, não mudou para os novos produtos de sulfatagem da vinha, mantendo-se fiel ao sulfato de cobre, até ao fim. Também o milho híbrido sofreu com esta forma de ser. Só depois dos outros o usarem durante anos, ele aceitou experimentar a receita. No entanto, lembro-me que, nos primeiros tempos da experiência, apenas o usava no milheiral destinado à alimentação do gado, não o querendo para consumo próprio ou para venda.


Uma das áreas de ensaio humano a que aderiu, desde sempre, centrava-se na produção dos machos, cruzamento de cavalos com burras. Tinha a convicção que, para trabalhos duros, eram os melhores. Por isso, sempre que o negócio lhe interessava, comprava machos e preparava-os para o trabalho. Fazia-o de forma diferente do que víamos nos filmes, pois o único método similar consistia no volteio, ou seja, fazer o cavalo (ou o macho, como é o caso em apreço) andar em círculos, no extremo da corda que o prendia, com a outra ponta segura na mão do dono.
Tudo o resto era bem mais suave. Numa primeira fase, em passeio com corda curta ou ainda no volteio, era uma criança que montava o animal, em pêlo e segurando-se nas crinas (eu fiz este trabalho várias vezes, tendo sempre mais prazer que medo). Depois, já com sela e rédeas, repetiam-se os passeios e os círculos, ainda com alguém muito jovem. Só depois de semanas de treino o meu tio o montava, em estrada de terra, plana, não fosse o diabo tecê-las. Normalmente, pouco animação havia. O cavalo aceitava, com alguma naturalidade, a nova condição e o meu tio começava a pensar onde o iria negociar, por um valor consideravelmente mais elevado.


Mas não era só nesta função que o meu tio os trabalhava. Também nos vícios que traziam actuava, procurando acabar com eles, já que desvalorizavam o seu preço. Porque tinham esses vícios, comprava-os bem mais baratos do que os vendia, quando conseguia que desaparecessem. Não tenho memória de falhanços, nesta matéria.


Um dos machos que passou por lá tinha uma dessas particularidades, condicionadoras do seu valor – escoiceava tudo e todos que se atreviam a passar pela sua traseira. No dia da sua chegada, fomos todos alertados disso e proibidos de nos aproximarmos dos pés do bicho – para o meu tio, não havia patas, antes mãos e pés, e era assim que se lhes referia.
Não demorou o “tratamento”; o meu tio, como quem não queria a coisa, assobiando, passava por trás do macho, lentamente. Se este ficasse imóvel ou recolhesse os pés, para perto das mãos, ele continuava a andar, sem parar. Pelo contrário, quando afastava, para fora, os pés, o meu tio reagia de imediato e com brutalidade, pontapeando-lhe os casco com os seus socos, duros e pesados. Explicava-me, nessa altura, que o coice era assim preparado, para que a força usada atingisse valores máximos, com a rápida mola que daí resultava – os cascos recolhiam à barriga e saíam, disparados, em direcção ao incauto que se atrevia a transitar por ali. Se, pelo contrário, os recolhesse para escoicear, pouca força sairia, no movimento simples de dentro para fora. Logo, quando os recolhia, mostrava mais medo de quem passava do que vontade em agredir. Também me justificava o seu método, bem mais violento do que gostaria: "se levares uma patada, percebes que esta é uma linguagem que o cavalo entende bem, pois recebe aquilo que se preparava para dar – muita dor".


Gostava muito dos cavalos do meu tio, fossem machos ou não. Também este maníaco do coice sentiu essa minha forma de ser. Nos momentos mais complicados, em que o castigo era aplicado, aproximava-me do seu focinho, com milho numa mão, que abria só quando estava perto da sua boca. Sendo um petisco muito apreciado, os seus dentes apanhavam todos os grãos, que comia com prazer sofrido. Acenava sempre um agradecimento, com os olhos muito brilhantes, não sei se da dor ou do prazer.


Ao fim de uns meses, foi vendido a um moleiro, que o queria para o transporte da farinha. Só o voltei a ver uns dois anos depois, na vila. O moleiro passou por mim, sem parar e, dos três ou quatro animais que o seguiam (sem corda, o que demonstrava o bom treino recebido), um desviou-se do caminho e dirigiu-se-me, acenando com a cabeça e encostando-a ao meu peito. Intrigado, porque o não reconheci de imediato, acariciei-lhe o focinho. Só quando vi as sacas brancas, associei os dados. E ainda tive que explicar ao moleiro a razão daquele comportamento do seu melhor macho, como me informou. Conhecedor profundo destes animais, o moleiro tirou alguns grãos de milho de uma das sacas e deu-mos, para eu poder repetir o acto que nos uniu.



Vê-lo a ir embora foi um dos momentos mais marcantes desse tempo. Também me marcou saber que os machos não são capazes de se reproduzir, pois todos são estéreis. Sinto, mais que sei, que esta é uma resposta da natureza à intromissão do homem no seu curso normal. Face às notícias do avanço científico na genética, espero que outras respostas naturais surjam, rapidamente. Para nosso bem.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Crescimento e maturidade

Fui politicamente instruído de forma célere e enquadrada. Na minha turma, em 74/75, dois colegas dominavam a matéria, centrando-se no trotskysmo, doutrina que reproduziam com entusiasmo e profundidade. Aprendi, rapidamente, a desprezar os revisionistas (o que era difícil, porque alguns eram bons amigos), a desconfiar dos maoistas (com quem simpatizava, pela forma empenhada da sua militância) e a odiar os estalinistas - que diabo, Trostky, herdeiro de Lenine, foi morto, no México, a mando de Staline, o usurpador!
Aprendi a conhecer a 4ª Internacional sem fazer ideia se houve outras, antes. Descobri que a social-democracia russa propunha uma visão comunista da sociedade e que a dominante na Europa nada tinha a ver com a de Francisco Sá Carneiro.

Para me libertar destas amarras ideológicas, aderi à FSP – uma espécie de alter ego do PS, menos intelectual que o MES, o partido da esquerda festiva. Manifestações, comícios, colagem de cartazes, reuniões e doutrinação passaram a ser actividades normais, do dia-a-dia. Namorar, também.
Recordo com carinho a mistura dos mundos. Ela trabalhava paredes-meias com a sede, eu fazia horas com panfletos e treino de guerrilha urbana. Às sete, ela despegava, eu transitava de um idealismo para outro. Não sei se a encontrei por força da causa, se aderi ao partido pela proximidade. Mas adorei todos os bocadinhos, com ela e com ele.
Fui parte activa no verão quente (1975). Ajudei, sistematicamente, a engrossar a participação popular. 20 de Setembro, 11 de Março, 25 de Novembro não são só datas. São acção, participação, gozo e frustração. Pires Veloso, Corvacho, Otelo e os 9, Vasco Gonçalves e Mário Soares não são só nomes. São referências, prós e contras, gritos e convicções.
É nosso costume avaliar o que fomos e o que fizemos, quando a maturidade nos atinge. Também o faço, com regularidade. Tive uma arma na mão, fui dado como gravemente ferido, assaltei uma sede e trouxe uma cadeira e um tapete de recordação. Disparos de G3, por cima da minha cabeça, acertando e marcando a parede a uns escassos metros do local onde me abaixei, também estão registados na minha mente. Explodiram cocktails molotovs aos meus pés e estufei o peito em direcção a contra-manifestantes. Tudo vivi com pleno e excepcional gosto. Tudo faria, de novo, se o tempo o permitisse e se as condições fossem similares. Não me vejo a fazê-lo, aqui e agora.




Mas não abusem, não prometam sempre um mundo novo, só por prometer.

É que pode querer o povo um mundo novo a sério.

sábado, 21 de abril de 2007

Este sou eu, no fim do ciclo que me levou a Celorico. Com 17, 18 anos, deixei de passar férias na aldeia, na minha aldeia, e passei a visitá-la, com alguma frequência, o que ainda faço.



É a minha faceta citadina, viciosa, confortável. A troca da levada, canal aberto na encosta das serranias, por onde corre a preciosa água para a rega dos campos, pela praia de Francelos, de areia fina e clara, com o vento sempre presente e, quando não insuportável, mitigador do sufocante sol de verão.


Ali, corre a levada. Sempre que se aproxima de um dos seus destinos, as leiras de um lugar, aparece uma abertura no canal, onde uma tábua, calafetada com torrões, impede a água de parar, nos dias em que pertence a outro. São as portas do Barroco, da Corujeira de Baixo, da Corujeira de Cima, das Casas Novas, todas a significar um rasgo no caminho que acompanhada a levada, um espaço mais ou menos largo, que tinha que ser ultrapassado com um salto.


Cá, tinha as deliciosas viagens de comboio, apinhado, com amigos e cúmplices, em direcção ao sul, num tempo curto que nos despeja ainda longe das ondas, imponentes e refrescantes, algumas vezes em demasia. Passear junto ao mar, nadar na serena baixa-mar, mergulhar, atravessando as ondas da maré-alta, olhar o belo sexo ou dormitar ao sol, são prazeres merecidos.


Já por lá, o Tejo, de tons cinza, tinha dado lugar ao Farruco, pequeno rafeiro algo medroso, mas de uma lealdade incontornável. Se daquele recordo o temor sentido enquanto não era reconhecido, deste fica a certeza da sua alegria, sempre que voltava.
Nem todos os locais resistiram à acção arrasadora do tempo. O Barroco deixou de ser quintal, reintegrando-se no monte onde foi esculpido. As poças, reservatórios de água feitos de muros de pedra ou terra, logo à saída da mina ou por baixo da pedra onde a água nascia – e, no Barroco, uma das poças recolhia a água nestas condições milagrosas, escorrendo pela parede de um rochedo – ainda por lá se encontram, embora o seu número vá escasseando.


Se repararem bem, tenho um cigarro na mão esquerda, coisa parva que comecei cerca dos 14 anos, em … Celorico. Felizmente, outro tanto tempo passado e deixei de fumar. Resta a tolerância, face aos que ainda o fazem. Não me incomodam minimamente, embora me obriguem a sermão e missa cantada, relativa aos malefícios do tabaco. Coisas ….
Já o cabelo estava para a minha relação com os meus pais como o brinco ou o piercing estará para o meu filho e para mim, se ele se lembrar de tal coisa. Vou aguardando com esperança.
Também a costa marítima de Gaia está diferente, muito diferente. Felizmente, para melhor, requalificada, limpa e recuperada. Valadares, Miramar, Aguda, para além de Francelos, são locais onde dá gozo estar, hoje.


A Refontoura resiste e a sua capela, dizem-me, é património municipal. As Bessadas, onde aprendi a nadar, é hoje uma praia fluvial, motivo de orgulho para os celoricenses, paredes meias com a Biblioteca Municipal, enquadrada nos novos jardins do centro da vila – a tal do professor Marcelo Rebelo de Sousa. À data, era apenas um fio de água.


Ainda há bogalhos. Enquanto houver carvalhos, enquanto os montes e as serras forem o postal da terra, as pequenas e leves nozes, que ombreiam com as bolotas nos ramos das árvores, vão continuar a possibilitar às crianças as brincadeiras na levada. Um dos últimos lugares no desenvolvimento do país pode ser um custo elevado, mas ainda bem que Celorico cresce mais devagar que outros locais. Se por lá passarem, vão entender. Podem usar os sapatos.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Expectativas e obrigações

Só agora comecei a escrever. Se outra vantagem não houvesse, esta particular forma de comunicar lembra a carta e, sobretudo, o postal do século passado. É engraçado como esta frase se tornou adequada – o século passado está, já, tão distante … tanto quanto o 5 de Outubro de 1910, para os da minha geração. E só passaram meia dúzia de anos ….
Escrever com este cuidado, só agora aconteceu. O que significa que, antes, não era escrita, o que produzia. Era assim uma espécie de obrigação, como quem responde a perguntas, para não se excluir. Escrevia (se era isso) para cumprir com deveres. Sobretudo profissionais.
Aprecio Samarago e entendo a sua postura quanto à dependência da escrita face ao que se tem para dizer e a quem se destina essa mensagem. Tirando o exagero, concordo com a ideia de parar de escrever quando nada temos para dizer ou, tendo algo para transmitir, quando não temos destinatário. O exagero só é perceptível em situações marginais, de génio, como em Pessoa, que não precisa de público - ele próprio, ou as suas múltiplas personalidades, serão suficientes, e as Margaridas do nosso tempo, que descobriram o filão do vácuo, preenchido com a sonoridade das palavras encantadoras.
Isto vem a propósito da forma como respondemos ao voraz apetite dos blogs, e do nosso em particular. A regularidade é essencial. Não exactamente a cronológica, será mais a das expectativas. Mas não pode passar muito tempo sem uma nova publicação. O que nos leva à questão do que temos para dizer. Porque descobri as histórias da vida que me envolveu, no passado, encontrei uma temática que tem sido bem acolhida. O que me conduz aos destinatários. Porque são poucos, não os posso perder. Esta pressão é danada!
Já agora, o que me alimenta não é o que produzo, nem aqueles a quem atinjo, porque não os equaciono quando me lanço na aventura. Mas a resposta, singular ou partilhada, é decisiva.
Sou frequentador assíduo de meia dúzia de espaços deste tipo, onde deixo, muitas vezes, um pequeno comentário. Pode ser que os outros sejam como eu, pode acontecer que esse pequeno gesto seja o dínamo da continuidade. No entanto, concordo com aqueles que me dizem ser necessário ir um pouco mais além. E estou a matutar nisso.
Já agora, um destes dias vou-vos contar dois episódios do meu passado, um ligado ao Carvalho, o outro à minha felicíssima juventude. Mas não hoje. E, reparem, que o prometo como se fosse uma grande novidade! Manias!

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Amizades d'antanho

O Toninho era, quase sempre, fonte de divertimento, que jorrava em caudal volumoso. Nem sabia ser de outro modo, quando para aí estava virado. Conheci-o de forma chocante, já que fazia equilibrismo, numa instabilidade propositada, no corrimão do tabuleiro superior da ponte, gritando a sua morte voluntária, enquanto girava o corpo, numa volta estonteante a uma das colunas suporte de iluminação. Era de tal modo perigosa a façanha que todos os que o cercavam – e eram muitos – esticavam os braços para o agarrar, nunca o conseguindo devido à rapidez do seu movimento, mas nunca desistindo de o fazer, na vez seguinte, antecessora duma outra que abria caminho à próxima, para a repetir de imediato.
Eu olhava, boquiaberto. Reconhecendo alguns no numeroso grupo, aproximei-me de um deles, que apreciava a cena com um sorriso, sem mostrar grande preocupação. Subiram, em uníssono, os cantos da sua boca quando me disse que o figurão era famoso. Vais conhecê-lo e é garantido, vais gostar dele. Daqui a um pouco, ele deixa-se destas coisas e voltamos para o Café, vais ver.
Assim foi. Tão depressa rodopiava como saltou para a segurança do passeio e, sem mais, arrancou para o Mucaba, local de encontro e de convívio apreciável, que eu, só agora, começava a frequentar.
Não era magro, mostrava mesmo uma notória tendência para alargar, num futuro mais ou menos próximo. Mas o sorriso maroto, o olhar cantante e a predisposição para exagerar na agudeza e volume do tom, em quase todos os momentos de protagonismo, faziam do Toninho um dos mais populares naquela zona, produtora de, pelo menos, uma dezena de espécimes fora do normal. Lembro o Luciano, que era tramado para a pancadaria; uma vez saiu disparado para o exterior do, à data, famosíssimo café, catedral de francesinhas e girafas (caneca de cerveja de enormes proporções), para se meter numa briga, em que uma mão cheia de mânfios, como chamávamos aos da nossa idade que não conhecíamos, batia desalmadamente num outro, também, para nós, absolutamente desconhecido. A refrega durou pouco. O Luciano chegou, como era seu timbre e, pancada neste, chuto naquele e murro no outro, desfez a contenda, correndo com o grupo dos “corajosos”. Regressado e questionado pelas razões que o levaram a intervir, a resposta surgiu pronta: com ele por perto, nunca seria possível a um bando de cobardes bater num gajo só! Ele tinha essa missão – equilibrar estas situações! Mais a mais, andar à pancada fazia-lhe bem, acalmava-o ….
Mas agora, e aqui, quero recordar o Toninho. O da viagem à Póvoa, no comboio da linha da Trindade, que não era rápido, nem confortável ou seguro, de tal maneira que, ainda mal havíamos passado os primeiros túneis, já uma cabeça aparecia no lado de fora da janela, no extremo inferior do corpo que se prendia precariamente ao tejadilho da carruagem, pelos pés! Como se isso não bastasse, dava o Toninho fortíssimos murros na janela e gritava que a queria aberta, porque estava a ficar cansado e desejava entrar. Não nos fizemos rogados (com ele nunca se sabia, podia acontecer estar a falar verdade e cair a qualquer momento) e puxámo-lo para dentro, para os assentos, onde se refastelou e afirmou, convicto, que o tempo ia mudar, porque sentia a cara fria e isso era sinal de chuva!
Ou o Toninho das idas, também em comboio, para a praia, agora na linha do norte, nos tranvias, que paravam em todas as estações e apeadeiros. Liderados por ele, entrávamos num apeadeiro sem bilheteira, que ficava perto do local onde morávamos. Na carruagem que escolhíamos, composta por três espaços de bancos e dois patamares de entrada, intermédios, ocupávamos um destes, enchendo-o.
A segunda coisa a fazer, depois de tomar o cuidado de ocupar o patamar mais afastado da carruagem onde andava o revisor, era abrir o ar, acto praticado com religiosa devoção e obrigatoriedade. Consistia em puxar um botão que cortava o sistema hidráulico de fecho das portas, para apanharmos a frescura do vento com os nossos rostos corados.
De seguida, aguardávamos. Quando o revisor chegava, avançava em nossa direcção, fazendo o seu trabalho, de forma paulatina e profissional. O seu bilhete, por favor? Clique, clique, aqui o tem, muito obrigado. O seu bilhete, por favor, de novo o som da dupla trincadela do alicate e do agradecimento final. Não tem bilhete? Entrou em? Vai para? Muito bem, são cinco e quinhentos. Não tem troco? Isto está mau, há poucas moedas …
Quando estava junto do patamar que preenchíamos, e o comboio parava numa estação (ou apeadeiro, parava dezenas de vezes!), saíamos todos e entrávamos no patamar que já tinha sido “trabalhado” pelo revisor. Ficava vazio o que estava à sua frente e cheio o que ficava nas sua costas. Muitas vezes o víamos a olhar para trás, com o sobrolho franzido. Mas tinha uma tarefa a cumprir, que não abandonava. Passava a cumpri-la de forma mais célere, para acabar a carruagem e voltar ao patamar agora superlotado. Não tenho memória de isso, alguma vez, lhe adiantar grande coisa. Quando conseguia regressar, estávamos cá fora, na estação da praia, todos mais o Toninho, a rir às gargalhadas do olhar frustrado que o “pica”, como carinhosamente o tratávamos, assumia nessa altura.
Arreliar os mais velhos era o desporto favorito do Toninho. O vadio parava à porta do café, para sair um passageiro. Quando se preparava para seguir, o nosso herói saía em grande velocidade e tirava os tróleis dos fios eléctricos. Lá vinha o condutor repor os alimentadores de energia, para poder continuar a viagem. E vinha outra vez. E outra. Só lá para a quarta ou quinta, o Toninho desistia, com pena do homem, alegava. Eu sempre achei que era o resultado directo da ameaça feita pelo sujeito, de chamar a polícia se ele continuasse!
A sua travessura mais deliciosa, para nós, consistia na chamada do táxi que passava a essas horas tardias. Era certinho: parava e ligava o taxímetro. Leve-me a casa, por favor, dizia o Toninho ao entrar pela porta traseira, junto ao passeio. Sim senhor, sem problemas! E a sua casa é onde? É aqui mesmo, e saía pela outra porta, atravessando a avenida e caminhando em direcção a casa, acompanhado pelos insultos do taxista, que não via piada nenhuma naquilo!
Se calhar foi por isso, por gostar tanto de se meter com os mais velhos, que não chegou a essa condição. Ou por ter mudado tanto, pois passou a temer as mais seguras e pacatas aventuras. Ou, e isto é o mais certo, por ter sido atingido por mal danado, que o levou pouco depois. Ficaram estas memórias e a imagem, que evoco regularmente, do padrinho do meu filho.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Inteligência e Doidices

No que a seguir se conta, ocorria um erro de facto na primeira publicação, que convém emendar. Situava-se no segundo parágrafo, onde se apresentava, e apresenta, a razão que leva a personagem central a endoidecer. Por esse motivo, o que hoje e aqui se relata é diferente do que já se fez - mas a alteração é feita em nome do rigor histórico, logo deduzo que serei desculpado.
Era conhecido pelo Barbado, desde que deixara de se preocupar com o aspecto. Endoidou, diziam todos na terra, e não se enganavam muito. Não conseguiu aguentar a divulgação daquilo que só ele sabia – para além dos autores, claro.
Até o filho havia assumido como seu, bem sabendo que era o produto da infidelidade de quem mais julgara amar. Havia partido para a terra da árvore das patacas de todos os portugueses da época, procurando a sua fortuna. Mas teve que voltar, ainda antes de atingir os seus objectivos. Recebera a notícia que o ferira profundamente, de forma seca e directa: a sua mulher estava grávida de outro. Engoliu a dor, o orgulho e a vontade de reagir. Viveu o dia-a-dia sem pensar muito. Tocou a vida como se fazia com o gado, na terra - para a frente.
O golpe fatal, que o fez desistir, aconteceu anos depois. O filho protegido tinha entrado para o seminário, num golpe de sorte. O futuro estava garantido para todos os que trilhassem essa vida de rigor e fé. No entanto, passado algum tempo, foi expulso, porque os responsáveis pela instituição souberam da sua origem pecaminosa - com a agravante do verdadeiro pai ser padre.
Por muito que matutasse, não conseguiu evitar o sofrimento. Todos saberiam e nada podia fazer para evitar os olhares de comiseração, que o iriam trespassar. Encontrou a sua saída, entrando em si. Nada mais encontrava nos outros que valesse o esforço. Continuou a lidar com os do seu sangue, mas sem dar explicações, sem aceitar piedade, sem partilhar sentimentos.
Caminhava muito. Ia, com facilidade, de Carvalho, em Celorico, até Amarante, Penafiel ou mesmo Gaia, onde morava uma sua sobrinha e afilhada. Uma vintena de léguas corridas em 2 ou 3 dias, sempre com pressa.
Morreu de forma dramática, num sofrimento atroz, que muitos consideraram o fim que perseguia, desde que cortou laços e nós. Perseguido por miúdos, que todos sabemos tão capazes da extrema doçura quanto da crueldade mais requintada, na festança que os caracteriza quando descobrem a diferença frágil no outro, caiu por uma ladeira e, na levada que corria lá no fundo, partiu uma perna. Não aconteceu muito longe, um pouco para lá do Barroco, que o sobrinho começara a granjear. Nem parecia que fosse dar no que deu. Só que o Barbado não era capaz de manter o gesso, arrancava-o mal era colocado, gritando que precisava de liberdade para abalar. Tantas vezes o arrancou, tantas vezes se feriu, tantas vezes tentou sair do leito que o corpo cedeu.
Lembro um pequeno episódio que me foi contado por quem o tratava por padrinho. Chegado ao Porto, era seu costume dirigir-se ao local onde ela trabalhava e gritar ou cantar por ela, fazendo-a passar “por vergonhas”, como me dizia com um sorriso de boa memória. Assim, para evitar males maiores, arrastava-o para sua casa, no centro de Gaia, onde tratava dele, dando-lhe de comer, lavando-lhe a roupa o deixando-o ficar dois ou três dias a dormir na cave, fria e húmida, mas suficiente para o afastamento que o tio Barbado procurava, constantemente.
Numa dessas visitas, a afilhada vestiu-lhe uma camisa do marido, enquanto se propunha levar a sua ao rio, para as lavadeiras tratarem dela, junto com outra roupa que precisava ser lavada. Antes de sair de casa, depois da anuência do tio, verificou que os botões eram de madrepérola, de uma riqueza que só reconhecia, nesses tempos de enormes dificuldades, pelo inesperado da descoberta. Rápida como só ela sabia ser, substituiu-os por outros, parecidos apenas na cor, que guardava na caixa da costura. De certeza que os novos ficariam bem na camisa domingueira do homem e o tio, doido e sem ligar ao que o rodeava, nem deveria notar a diferença.
Satisfeita consigo mesma, foi ao rio – na realidade um tanque, que aproximava o Douro das casas – onde entregou a roupa às senhoras que prestavam esse serviço a quem, como ela, trabalhava fora. Mal a tarefa ficou concluída, pegou na roupa e dirigiu-se a casa, onde a colocou a secar.
Dois dias depois, o tio Barbado informou que se ia embora e pediu à afilhada a sua camisa. Depois de ela lha entregar e quando se preparava para a vestir, olhou espantado para os botões. Entre alguns palavrões, que caracterizavam a sua forma de reagir aos contratempos, surgiu célere a acusação de roubo! Os seus botões não eram aqueles, eram outros. Onde estavam, onde estavam, repetia aos gritos.
Envergonhada, a sobrinha tentou, em desespero, uma última cartada. Foram as lavadeiras, enquanto esperava pela roupa, deve-se ter distraído e elas trocaram os botões. Foi, de certeza, o que aconteceu, padrinho.
Cada vez mais indignado e usando todo o tipo de linguagem que se lembrava, ele perguntou-lhe se ela achava que o podia enganar assim, tão facilmente! A ele! Que sabia tão bem como ela que a agulha e a linha não correm em tecido molhado!
Foi o suficiente. 5 minutos depois, com os botões de madrepérola no seu devido lugar, o Barbado partia. O seu nome era João Carvalho e foi meu tio-avô. A sobrinha e afilhada era a minha mãe e servia-se desta história para me mostrar a justeza da expressão que mais gostava de usar, quando queria demonstrar que a honestidade deve nortear, sempre, as nossas acções: “apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo”.