sexta-feira, 29 de junho de 2007

Literatura

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Nos livros, há um que me faz feliz, que releio regularmente, com o mesmo prazer da primeira vez. Já o apresentei a muita gente, pelo que não será surpresa, mas que não deixo de referenciar. Trata-se de "Três homens num barco (já para não falar do cão)", de Jerome K. Jerome.
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Também posso afirmar que prefiro os autores aos livros, na medida em que alguns autores são "produtores" de mais do que uma obra-prima.
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Sempre preferi a literatura estrangeira à portuguesa, o que me tem trazido alguns dissabores nas saudáveis discussões que vou tendo com Professores de Português que me oferece(ra)m a sua amizade. Não significa que não aprecie alguns (Eça e Torga são exemplos muito bons), mas fui "formatado" pelos americanos, quando comecei a ler (ou a devorar?) livros, aí pelos meus 10/12 anos.
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Júlio Verne, que recordo com saudade, Mark Twain, Emílio Salgari foram alguns dos autores que mais me marcaram.
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Robert H. Heinlein, na ficção científica, Aghata Christie e A. A. Fair, nos policiais, Hans Helmut Kirst e Sven Essel, nos romances de guerra, foram outros escritores importantes, para mim.
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Mas tenho dois nomes "superiores", nisto das letras:
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Jorge Amado, que deveria ter sido o primeiro escritor em língua portuguesa a receber o Nobel da Literatura, pelo conjunto da obra e, sobretudo, por ter sido um excepcional contador de histórias - o que me impede de destacar um qualquer dos livros que escreveu;
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E John Steinbeck, escritor americano dotado de talento enorme, capaz de produzir uma obra de dimensão mundial e de qualidade excelsa. É dele que extraio o livro que considero o "da minha vida", também pela coragem que Steinbeck teve ao publicá-lo no tempo em que, pela primeira vez, o fez. Refiro-me a "Batalha Incerta", que será mais fabuloso do que outros, por ventura, mais afamados (As vinhas da ira, Ratos e Homens, A um Deus desconhecido ou Viagens com o Charlie).
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Se ainda nada leram de Steinbeck, corram a fazê-lo. Estão a perder algo muito bom. Se já leram alguns dos famosos, mas não "Batalha Incerta", devem colmatar essa falha com brevidade. Se já o fizeram, releiam, e registem que foi publicado no tempo da "caça às bruxas" nos EUA.
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domingo, 24 de junho de 2007

Filme maior

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Quando pensamos nisso, seja porque algo nos despertou os sentidos, seja porque nos inquiriram especificamente, não é muito fácil dizer qual a música, o filme ou o livro que consideramos ter sido "o da nossa vida". Desde logo, haverá mais do que um (de cada) e eleger apenas "o" é muito redutor, demasiado redutor. Ainda assim, vou tentar expor essas minhas preferências, de forma a publicitar também essa minha faceta privada.
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Começo pelo filme. Há uma mão cheia de filmes que me marcaram muito e, se calhar, mereciam ser destacados: Alien, o 8º passageiro (visto em estreia, no cinema, foi o primeiro filme de verdadeiro terror a que assisti, tantos foram os saltos dados na cadeira!), Jesus Cristo Superstar (musical encantador, para a idade que tinha, quando o vi) Ben-Hur (épico, reconhecidamente um dos grandes filmes americanos), Les valseuses (um filme marginal à grande distribuição, muito politicamente incorrecto), Blade runner - perigo eminente (o melhor filme de ficção científica que vi, sem deixar de gostar da Guerra das Estrelas) O caçador, Apocalipse now e Platoon, os bravos do pelotão (os melhores de guerra, juntamente com a Batalha das Ardenas e Uma ponte longe demais) Ensina-me a viver (música de Cat Stevens, do princípio ao fim, tornou uma história macabra e irónica num filme maior, embora também marginal à grande distribuição) e, mais recentemente, A Lista de Schindler (tratando a temática da coragem e da loucura, nascidas no inferno) são os dez mais que recordo (outros haverá que me escaparam, mas paciência).
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O Filme da minha vida: 1980 - Kagemusha, A sombra do guerreiro, de Akira Kurosawa.
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Sinopse (belo termo!) - Um senhor da guerra japonês é mortalmente ferido num atentado. Conhecido como "a montanha", por se manter imóvel, estrategicamente, esperando os inimigos (os outros senhores da guerra do Japão feudal), a família, temendo ser destruída se a sua morte se souber, encontra um camponês que é sósia do guerreiro e treina-o para desempenhar o papel de seu substituto. Espantado, primeiro, confiante depois, o treino corre tão bem que o sósia (após enganar a viúva e os filhos do seu anterior senhor, que não detectaram a falsidade) convence-se que é o próprio guerreiro! Comete, então, um erro fatal - tenta montar o cavalo do guerreiro, que não admite outro cavaleiro para além do seu senhor. Derrubado e humilhado, os espiões dos inimigos levam a notícia do embuste e a guerra começa a desenhar-se. O camponês volta à sua vida anterior e os filhos do guerreiro cometem, também, um erro fatal - movimentam os seus exércitos para campo de batalha estranho. A derrota acontece e é decisiva.
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Isto é o que eu recordo, quanto ao tema do filme.
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Outros dados, que o tornam único:
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Os actores são, todos, japoneses (embora se trate duma produção hollywwodesca);
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Interpretam os papéis de modo ocidental (os rostos são muito expressivos, os gestos largos e tetrais, embora sem exageros - aos nossos olhos, é claro!);
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A entrada do filme mostra-nos um exército em movimento, em vários planos, com imagens lindíssimas;
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A forma como o atentado é preparado é um mimo de imaginação (de dia, um atirador furtivo, um snipper, como se diz agora, pousa uma espingarda num muro, mede bem a posição enquanto aponta para o local onde, à noite e sem luz, o senhor do clã inimigo estará sentado. Volta à noite e, tendo a espingarda na posição estudada, dispara. Não sabe se acertou ou não. Isso só os dias seguintes mostrarão);
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Um sonho do camponês é um tratado cinematográfico: uma explosão de cores na tela, fortíssimas, que se transformam em mares coloridos que engolem tudo. Uma autêntica agressão para os olhos dos espectadores!);
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O olhar e o rosto do sósia, quando soldados se colocam à sua frente para morrerem no seu lugar, num ataque inimigo. Soberbo;
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A deslocação do exército à beira-mar, com um fundo de excepcional e rara beleza;
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A batalha decisiva não é filmada. Os rostos do líderes do clã vão mostrando o seu desenvolvimento e o resultado ... catastrófico para o lado das personagens. A expressão facial do camponês, que vê o campo de batalha escondido nos juncos, não é menos reveladora;
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Os despojos da batalha - uma visão dantesca, com milhares e milhares de personagens, humanas e animais, sobretudo de soldados e cavalos, agonizantes, feridos ou mortos, estropiados, uma coisa fabulosa.
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Deixo-vos dois clips que encontrei, no YouTube, e que são pequenos e pobres exemplos do que acima afirmo. E um pedido: se tiverem o filme, ou souberem onde se encontra, por favor digam-me (embora revê-lo possa ser a desilusão do costume, nestas coisas da memória).
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Trailer: Kagemusha (Akira Kurosawa, 1980):
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Kagemusha Breakdown (a música é pouco adequada, mas enfim!):
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Memórias

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Quanto mais velhos somos, mais refinam as memórias (boas) que guardámos. Viver essas recordações, mentalmente, é um acto de prazer. Se são nítidas, o prazer é redobrado. Quando se esbatem, é uma delícia sensorial, etérea, brumosa e difusa.
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O problema reside nas novas tecnologias e no serviço que nos prestam. Ou são limitadas e não respondem ao que queremos, ou o fazem de forma crua, insensível, sem cuidar do romantismo associado aquele tipo de evocação.
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Vou dar-vos um bom exemplo do que quero dizer. Há muitos anos atrás, quando transitava para a idade adulta, com 20/21 anos (é sabido que os homens demoram um pouco mais a fazê-lo ...), apareceu um videoclip que mexeu comigo. Era uma música muito bonita, dos Earth & Fire, chamada Weekend, grupo musical que tinha uma vocalista que eu considerava também bonita mas, sobretudo, muito sensual - no tal videoclip. Tudo se conjugava: a música, a letra, a mulher, a roupa, a dança, o olhar.
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Passados estes anos todos, porque cada vez reparo mais na recuperação destes videos promocionais do passado, quando visito outros blogues (como é o caso do Terrear e dum novo que me não apetece divulgar), resolvi procurar este em particular, para reavivar as sensações.
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Não o devia ter feito. A música continua linda (a great song), a roupa justa é, de facto muito sensual, a dança ainda resiste, mas a mulher, vista agora, a esta distância ... nem o olhar, nem os requebros, nem o sorriso conseguem esconder alguma desilusão. O que o tempo nos faz!
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Aqui vai, para constatarem pessoalmente:
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quinta-feira, 21 de junho de 2007

O primeiro encontro com o Serafim

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Por seu lado, o Serafim, Professor de Filosofia sem canto para ficar, era uma pessoa de peculiares talentos. Muito bom no relacionamento, na evocação de memórias longínquas, no trato e na figura, sempre cuidada, era um autêntico desastre em tudo o que implicasse o uso das mãos. 45 anos, divorciado, com profissão que rendia um salário generoso, no meio duma dezena de estudantes universitários, tinha o bom senso de aceitar jogar às copas no dia de receber, fórmula perfeita para distribuir uma pequena parte do vencimento aos famintos companheiros de residência.
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Um dia, quando me dirigia para a República (a dos Pyn-Guyns, situada na alta), juntamente com o João Novo, colega da área da Engenharia Civil, vimo-lo no seu carro, um Morris azul, parado nos semáforos, em primeiro lugar da fila, aguardando que o verde caísse, para arrancar. Como levávamos malas pesadonas, sugeri ao João que o alertássemos para a nossa presença, visando uma boleia muito tentadora, até casa. É que as colinas de Coimbra não são fáceis, para carregamentos.
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Nem penses, disse o João, de imediato. Já lá ao fundo reparei nele e acho que as coisas vão aquecer. Se bem conheço o Serafim, isto vai ser giro. O melhor é pousarmos as coisas e ficarmos por aqui, a assistir. Vais ver que não perdemos nada, até nos vamos divertir bastante.
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Assim fizemos. Alguns segundos depois, o verde apareceu. O Serafim ficou no mesmo local, parado. Mais alguns segundos, e estava instalado um verdadeiro pandemónio: todos os condutores que estavam na fila, presos pelo Morris, começaram a manifestar o seu desagrado, fazendo soar as buzinas, com maior ou menor harmonia. Mas o barulho, esse era muito e em crescendo.
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O sinal voltou a ficar vermelho. Com resmungos sentidos, o silêncio foi reaparecendo. Mais alguns segundos e volta o sinal para avançar. Mais uma vez, o Serafim fica parado, no mesmíssimo sítio. Novo buzinão (como isto aconteceu no início dos anos 80XX, julgo ter testemunhado, in loco, o primeiro buzinão do país).
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De repente, o Serafim salta para fora do carro e, virando-se para todos os que estavam atrás, começou um discurso argumentativo-filosófico, mais ou menos nestes termos: Mas que é que querem! Não anda! Está avariado! Não mexe! Apitem, que vos há-de adiantar muito! Não anda, mais nada! A-v-a-r-i-a-d-o!
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O sujeito do carro imediatamente atrás saiu e aproximou-se do Serafim: Então que se passa? Problemas, é? Claro, responde ele, está avariado e esses aí buzinam como se isso resolvesse alguma coisa.
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Ainda o Serafim explicava o que se passava, dizendo que o motor foi abaixo e não pegava, já o sujeito entrava no Morris e dava à chave. O carro começou, imediatamente, a trabalhar e ele arrancou, passando o cruzamento. O Serafim, que se esforçava por traduzir gestualmente todas as explicações que tinha, ficou com um ar espantado, mas não por muito tempo. Logo, logo, era vê-lo a correr atrás da sua pequena viatura, gritando ao intruso: Alto, alto aí, esse carro é meu! Pare, pare, ouviu? Alto! Polícia!
Claro que esta cena durou apenas alguns segundos. O sujeito, que apenas queria tirar o carro “avariado” do caminho do seu, após o cruzamento estacionou, de forma a libertar a passagem.
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Ao passar pelo Serafim, no regresso ao seu automóvel, deu-lhe uma palmada nas costas e disse-lhe, com um sorriso largo: “Prontinhos, está arranjada a viatura!”
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Nesse dia aprendi a estar sempre atento ao Serafim, de forma dissimulada e o mais próxima possível. É que a risota, que o João levava às lágrimas, tornava-se uma possibilidade muito séria.
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terça-feira, 19 de junho de 2007

Res Publica

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Dos dez que vivíamos na República, dois não eram estudantes: o Serafim e o Matias. Ambos tinham sido repúblicos, no seu tempo de estudantes, tinham concluído o curso e abalado para a vida de adulto. O Matias regressou por puro comodismo, não tinha uma verdadeira (ou legítima) razão. Já o Serafim foi empurrado pela vida, que resolveu não lhe ser fácil. Divorciado, a mulher ficou com todos os bens e com a casa, deixando-lhe o caminho de regresso ao antro estudantil.
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Quanto ao Matias, não há muito a dizer. O seu quarto, em frente ao do Serafim, no piso inferior, era conhecido pelo “sarcófago”. As portadas estavam constantemente fechadas, não obstante ser o local mais procurado pois, sendo ele o único a ter televisão, isso era factor de atracção irresistível. Diga-se, em abono da verdade, que as revistas pornográficas também ajudavam, mas a caixinha mágica era decisiva.
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Nunca o vimos a tomar banho, ou sequer a lavar-se de forma mais alargada. Os olhos e as mãos lá iam sacudindo alguma água, e isso chegava-lhe. O facto de trabalhar para o jornal da cidade devia ser suficiente para garantir a sua higiene pessoal. O “calinas”, assim era conhecido, era um vespertino que rivalizava com o “bazófias”, como carinhosamente todos tratavam o Mondego, em termos de fama. Pelos vistos, em falta de água também.
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Um dia, quando trabalhávamos afincadamente à volta de uma mesa, levantando copos e projectando ases e manilhas, o Zé Carlos entrou de rompante no “casino” e afirmou, convicto: o Matias vai casar!
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Reboliço geral. Quê, ele disse-te? Com quem? Como sabes? Estás maluco ou quê? Tens cada uma! Todos alvitravam uma hipótese, sem dar espaço à resposta. A custo, lá conseguiu o Zé explicar-se: Ele está na casa de banho a lavar os dentes! Só pode ser casório!
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Corremos todos para o local, cuja porta nunca se fechava, por opção e falta de trinco. Lá estava ele, a esfregar vigorosamente os dentes. Visão espantosa, inesperada, mesmo assustadora. Confirmou-se. Casava no dia seguinte, sábado. Tinha pena, mas já arranjara casa e ia deixar-nos. Pensava vir visitar-nos mal as coisas acalmassem. Olha lá, diz-lhe o Serafim, com quem te vais casar? Um sorriso imenso antecipou a resposta. Com a D. Amélia, ora essa.
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O nosso silêncio foi ensurdecedor. Com a D. Amélia? Com a D. Amélia? Com a nossa empregada a dias, que nos lavava a roupa, fazia de comer e arranjava a casa? A que ia ao mercado roubar hortaliça para fazer a sopa aos senhores doutores?
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Tudo isto nos passou pelos rostos, não foi preciso falar. Fê-lo ele, em resposta à nossa repetida, muda, parva e incrédula expressão. É, pessoal, ela também vai e não volta. Agora, vai tratar só de mim!
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Foi assim que deixámos de ter empregada a dias e passámos a revezarmo-nos na cozinha. Não foram tempos muito agradáveis, não. Salvaram-se as revistas, que não acompanharam o dono.
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sexta-feira, 15 de junho de 2007

Curso de Direito de 1978

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Na República dos Pyn-guyns, na alta coimbrã, a vida processava-se com normalidade (embora o normal fosse, amiudadas vezes, bastante invulgar).
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Os que frequentavam Direito partilhavam dois quartos no andar superior, ficando outros tantos desse piso para os das Engenharias. Por volta da meia-noite, estes tratavam de se deitar, para se levantarem por volta das sete horas da manhã, para não faltarem às aulas, hora a que os jurídicos costumavam ir para a cama. Isto tinha, desde logo, a vantagem de nos cumprimentarmos, pelo menos, duas vezes por dia. A outra vantagem traduzia-se na impossibilidade prática de ir às aulas, já que estávamos a dormir, no momento em que ocorriam. Por aqui se vê, claramente, que me incluía no grupo dos homens das leis.
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Éramos, à data da minha chegada a Coimbra, cerca de três centenas e meia de miúdos a frequentar a Faculdade de Direito, deslumbrados com a cidade (universitária), a vivência (universitária) e as pessoas (universitárias). O mundo resumia-se à Universidade e a tudo que dela ou nela acontecia. Nas primeiras semanas, também éramos trezentos e cinquenta nas aulas, em anfiteatros que não albergavam mais do que uma centena, pelo que nos espalhávamos por mesas, escadas, degraus, parapeitos de janelas e demais nichos que encontrássemos.
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Ao fim do primeiro mês, poucas dezenas sobejavam: tínhamos descoberto que o curso era sebentístico, ou seja, tudo o que o lente (ou os seus assistentes, nas práticas) diziam estava plasmado nesses suportes de estudo, as famosas sebentas. Eu fui dos primeiros a deixar de me preocupar com a presença nas aulas teóricas, mal descobri que as faltas não eram contabilizadas. Na aula de abertura, o Professor Catedrático explicou o principal objectivo do Direito, a busca da paz social:
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- Mas que paz é esta? A paz dos cemitérios? A paz queda e sombria que habita o mundo dos mortos? Não! É a paz da vida, que há-de nascer na dinâmica das relações, a paz vivente e eufórica que os homens são capazes de construir!
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Pois bem, depois de comprar a sebenta respectiva, mal a folheei, que salta aos meus olhos, na segunda ou terceira página? Exactamente: “Mas que paz é esta? A paz dos cemitérios? A paz queda e sombria que habita o mundo dos mortos? Não! É a paz da vida, que há-de nascer na dinâmica das relações, a paz vivente e eufórica que os homens são capazes de construir!” Ainda mal refeito do susto, entro na aula prática respectiva e, alguns minutos após o seu início, diz o leal assistente:
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- Mas que paz é esta? A paz dos cemitérios? A paz queda e sombria que habita o mundo dos mortos? Não! É a paz da vida, que há-de nascer na dinâmica das relações, a paz vivente e eufórica que os homens são capazes de construir!
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Em abono da verdade, as palavras não seriam exactamente estas, mas o efeito era este, sem qualquer dúvida. Deste modo, mal os colegas mais velhos me confirmaram que era sempre assim, passei a ocupar o tempo com mais utilidade, ouvindo fados e baladas pela noite dentro, fumando e bebendo sem grande regra, jogando cartas e conversando, conversando muito.
Bons tempos.
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terça-feira, 5 de junho de 2007

Coisas de miúdos


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Éramos cinco ou seis, muito novos, aí com 7, 8 anos, no bando dos desocupados de verão. Para falar verdade, eu seria o único verdadeiramente livre e, por força desse meu estatuto, os outros libertavam-se de muitos afazeres.

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Podíamos ser mais, mas aos outros era mais difícil escapar às obrigações. Entre estes figurava o Horácio, mais velho do que nós dois ou três anos e único homem em sua casa, desde que a mãe enviuvara.

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Cabia-lhe tratar das cabras, umas dez, que o seguiam para qualquer lado, com uma confiança e obediência que aos cães faria inveja. Isso explicava-se com o carinho do trato, quer acompanhando-as nas tapadas, quer acomodando-as na corte. Para ele, a Escola era apenas uma casa, onde nunca entrara.

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Era sabedor, o Horácio. Nenhum segredo lhe fechava a porta. Quando ouvia o canto de uma ave, nomeava-a de imediato e desfilava um sem número de informações, sem sequer desviar o olhar em sua perseguição: a cor das suas penas, o formato do bico, se era portadora de sorte ou azar, e muitas outras banalidades que, na sua boca, tinham perfume de grande sabedoria.

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Não se ficava pelas palavras. Nos silvados, era ele quem se esgueirava por entre os picos, para cortar, com um canivete, as tenras e doces pontas das silvas, depois ternamente aproximadas da boca das suas “meninas”, que não se faziam rogadas.

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Poucas vezes se juntava às nossas brincadeiras, antes nos aproximávamos quando nos cumprimentava, de partida para os montes ou no regresso, conforme o dia se mostrava ou desfalecia, escurecendo. No primeiro caso, seguíamo-lo durante algum tempo, ávidos de beber as preciosidades que jorravam da sua prosa. Se voltava para casa, era ele que parava e conversava um pouco, antes de recolher o gado.

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Já o Luís era um postal, como dizíamos à época. Falava com ênfase, usando vocabulário e fraseologia rebuscada, que ia apanhando nos restos do jornal que era usado na venda, para embrulho. Não lia mal de todo, muitas vezes a meia voz, embora sempre juntando as sílabas uma a uma, o que o obrigava a níveis de concentração muito elevados.

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Uma das tardes em que o Horácio voltava do pastoreio, estávamos todos sentados no muro da Ti Júlia, perto de um plátano bastante alto, a preguiçar e a contar as horas para a janta. Porque lobrigou alguns rebentos recentes, lá no alto, fez o que já todos tínhamos antes apreciado, noutras alturas: trepou de forma rápida, descansada e elegante, como só ele sabia, para voltar alguns segundos depois com a paparoca favorita das suas cabras. Estas tinham ficado perto, apreciando os dotes do dono, mas menos do que aquilo que aí vinha.

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Enquanto as alimentava, ia explicando porque aquelas folhas eram boa comida. Mostrava as nervuras, partia um ramo para exibir o suco, chegava mesmo a dar-nos a provar um pedacito para comprovarmos o sabor agridoce que o caracterizava.

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Se havia coisa que o Luís não aguentava era outro qualquer ser mais eloquente ou mais sabedor do que ele, fosse no que fosse. Não sabendo nada do assunto em causa, era seu costume introduzir nova temática, de rompante, para tomar o seu lugar no centro das atenções.

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Nessa tarde não foi diferente. Ainda com restos de suco de rebentos de plátano nos lábios, sem saber muito bem como tirar aquele sabor da boca, o Luís partilhou connosco uma das últimas novidades que tinha ouvido, há poucos dias. O Papa, segundo ele, era um dos maiores sábios do mundo. Pouca gente conseguia fazer o que ele fazia – onde quer que fosse, falava a língua desse país. Ninguém falava tantas línguas como ele! Não era assunto de todo desinteressante, pelo que todos prestámos atenção ao discurso.

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Não durou muito mais. O Luís resolveu concluir o assunto usando uma teoria muito sua e um termo erudito. O Papa, disse ele, porque falava tantas línguas estrangeiras, só podia ser também um estrangeiro, não havia dúvidas! Mais, alguém que fala tantas línguas é um verdadeiro … (o esforço para se lembrar da palavra era intenso e estava estampado no rosto, sisudo, circunspecto e fechado) um verdadeiro … antropófago! É isso, um verdadeiro antropófago!

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Com um ar fulminante de triunfo, virou costas e abalou para casa. Não ia sozinho – as gargalhadas do Horácio, junto com os berros solidários das cabras, acompanharam-no durante umas centenas de metros. Foi a chorar de riso que nos disse o que significava aquele epíteto – que aprendeu quando o Dr. Moura Bastos, o médico mais conceituado da terra, lho explicou e disse que havia gente assim, em África.

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domingo, 27 de maio de 2007

Invernos saudosos

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O Inverno, na aldeia minhota, tinha (ainda terá?) duas épocas distintas: de Dezembro a meados de Fevereiro era fechado, com húmido recolhimento e saídas pontuais para responder às necessidades do dia-a-dia, penso para o gado, lenha para o lume, alguma poda serôdia; já a segunda metade tinha outra vivacidade, com as pessoas a sair em cada aberta, a preparar terrenos e sementes, plantar batatas e semear cereais, os primeiros, que produziriam também os primeiros bens terrenos.
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Celorico, no fim do inverno
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O que mais me agradava, nas poucas vezes que ia a Celorico nesta época, entroncava na melancolia da paisagem e na água cristalina, cantando pelas bordas das leiras ou explodindo tumultuosamente do leito da levada, incapaz de penetrar na terra ensopada e regressando às suas origens na primeira oportunidade.
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Também apreciava o batuque do tear, que tinha redobrado trabalho nesta época de pousio, podendo a minha tia Augustinha dedicar-se mais à sua arte dos tecidos, no lugar da lide agrícola, que lhe tomava o tempo quase todo no resto do ano.
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A entrada para o tear, na casa dos meus tios, entretanto vendida.
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A cor das laranjas, palhotas e pouco ou nada doces, já de si pouco atraentes no aspecto, com o negro da terra impregnado na casca, carregado pelo vento e pela chuva, destacavam-se no verde pesado das árvores. Mirravam nos finos dedos das torres que as suportavam, ou melhor, que as largavam com muita regularidade em chão pejado de estrepes, restos da cana do milho que saíam do solo em afiados cortes oblíquos, armadilhas dolorosas para os que, como eu, também neste tempo frio e aguado, andavam descalços por tudo quanto era sítio.
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A única opção existente eram os socos do meu tio, quando eram por si rejeitados face à sua vetustez ou degradação, ou ainda quando esperavam os protectores pedaços de pneu, que evitavam o desgaste precoce mas, ao mesmo tempo, os colocavam na minha trajectória de pesquisa.

Uma das diversões do fim do dia, quando este crescia e clareava, consistia no exercício que o meu tio facultava ao cavalo, para que os músculos se não atrofiassem e a noite de sono fosse mais repousante. Um de nós, normalmente eu, ficava junto da casota do Tejo (sobreviveu, por muitos anos, ao seu ocupante), no intuito de impedir a fuga para sul, ficando o meu tio no lado contrário, no topo da costeira, com o mesmo fito, embora permitindo ao cavalo virar à esquerda e usar um corredor, sem saída, com cerca de duas dezenas de metros de extensão.
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Solto, o cavalo carregava na minha direcção e eu, com uma dezena de anos, levantava os braços, segurando numa bengala e gritando a plenos pulmões para o obrigar a parar. Não era uma questão de medo, era terror puro! Aquela massa brutal virada a mim, em velocidade acelerada, era uma visão terrífica!
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No entanto, o que acontecia era sempre o mesmo. Quando estava a meia dúzia de passos da minha pessoa, o cavalo parava, deslizando no chão e projectando uma enorme quantidade de terra e poeira que se depositavam por todo o meu corpo. Ainda não tinha conseguido recomeçar a respirar, já o animal tinha virado e corria direito ao meu tio, que só levantava os braços no último momento.
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À noite, à mesa, o assunto da conversa entre os meus tio era sempre o mesmo: a cara que eu fazia no momento crucial! Ambos se riam e comentavam que eram dignas de se ver, as caretas que eu fazia.
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Mais a sério, o meu tio comparava, amiudadas vezes, o meu comportamento corajoso (achava ele!) face ao do seu filho mais velho, antes de casar e abalar para Coimbra, onde ainda vive. Ficava no lugar que ora me destinava, no exercício hípico, e o ritual era costumeiro. O meu tio soltava o cavalo e gritava para o filho: ele aí vai, Avelino! Ao que respondia o filho: ele aí vem, meu pai, ele aí vem … e ele lá vai! Porque, em vez de o parar, cautelosamente fugia para o lado, deixando-o passar e ir correr montes e vales, até o meu tio o conseguir resgatar.
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A relação entre o meu primo e os cavalos não foi, nunca, muito íntima. Mas lá diz o povo, em todas as famílias há, quase sempre, quem não saia aos seus.
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terça-feira, 15 de maio de 2007

Um destino diferente

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Chamo-me Danadinho. Fui o quarto filho dos 5 que irromperam, em finais dos anos setenta, quase em simultâneo, num canto da despensa escura e húmida, onde a mamã procurou passar despercebida, acto atávico que não entendia mas que percebeu logo de manhãzinha, quando os patrões, alertados pelos nosso gemidos, nos pegaram, mediram e pesaram, tudo por estimativa.

Foi, aí, dado o primeiro passo para o desmembramento da família, forma única encontrada para garantir a velhice à mamã, que ocupava, havia muito, o lugar primeiro do carinho da família hospedeira.

Com toda a naturalidade, algumas semanas passadas (poucas, muito poucas, na minha perspectiva), em função dos estranhos que nos iam visitando, lá fomos entregues a gente humana diversa, com igual diversidade nas razões da escolha feita, o que carreava a cada um de nós maior ou menor felicidade, no destino traçado.

Tinha um pêlo mais comprido que os outros, com variados tons de cinza, o que me tornava apetecível, face aos maninhos. Tanto quanto sei, fui muito cobiçado e, por sorte, calhou-me na rifa uma família numerosa mas bem formada, onde fiz o meu desmame com o mínimo de sofrimento – a imagem da mamã apagou-se, lenta e serenamente, em poucos dias.

Eles eram 7 (mais do que nós, pois nunca lobriguei o meu progenitor – até pensava, ignorante na minha juventude, que nem existia!):
A mãe Deolinda, que me alimentou (com um biberão nos primeiros tempos e, posteriormente, com restos deliciosos) e sempre cuidou do meu bem estar, de tal forma que, uma vez, abriu-me as goelas à força e, com um alicate, arrancou uma maldita espinha que estava cravada na minha garganta;
O pai Carlos, que pouco ou nada me ligava, o que eu pagava na mesma moeda;
As raparigas, a Linda e a Mariita, que me coçavam as orelhas e alisavam o pelo de forma gostosa e meiga;
E os três rapazes, os dois mais velhos, o Kiel e o Jonas, menos exuberantes, o pequenito bem mais próximo, todos os dias me procurava e afagava. Tenho que ser honesto, gostava muito deste, do Zezito, para criança não me fazia muitas judiarias, mas foi o Kiel que me baptizou e, manias à parte, o meu nome era especial. Dizia ele que, para suceder à dinastia dos Artolas (e houve 3, o Artolas, o Artolas II e o Artolas III, o primeiro sem numeração apenas por não ser expectável a continuação da nomenclatura, tão seguidamente acontecida), só podia ser um danado como eu aparentava ser. Não enganei, foi assim que cresci e vivi.
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Falo deles com nostalgia porque os perdi, ao contrário da evolução natural das coisas – os nossos 10 a 14 anos de vida significam, quase sempre, que nos calha, a nós, desaparecer. Sei que não durei mais do que qualquer um deles, mas eles é que partiram, um dia, mudando de casa e não me levando, como acontecia com outras famílias.

Eu tinha a minha maneira de ser, porventura mais peculiar que os meus congéneres – dormia com os rapazes, de manhã fazia o meu dejejum também com os meninos, mas depois abalava para a minha primeira passeata. A casa tinha quintal, como todas as confinantes, sendo as propriedades separadas por muros de meia altura, que eu transpunha com toda a facilidade. Aliás, era em cima deles que gostava de apanhar sol, um dos meus vícios de miúdo que mantive ao longo da vida.

Por volta do meio-dia e no final da tarde fazia as minhas rondas, com um único objectivo: verificar o que era a paparoca em cada casa. Depois, com naturalidade, aproximava-me daquela que mais me agradava e esperava – havia sempre um pratinho para mim, fosse qual fosse a casa a que me dirigia.

Nunca deixava de visitar a minha família (eles achavam que eu lhes pertencia mas, de facto, eles é que eram meus). No entanto, eram mais as vezes em que apenas cumprimentava a gente e me estendia, para a sesta ou para passar a noite, do que para comer qualquer coisa que fosse.

No dia da mudança, todos se juntaram e, depois de muita choradeira delas e do petiz, lá decidiram que eu ficaria. Afinal, ainda que num tempo onde a publicação de estudos característicos da silly season não acontecia, a minha família percebeu que eu pertencia mais ao lugar do que às pessoas (o que acontece com todos os gatos) e que ficaria bem entregue, com vizinhos tão atenciosos para comigo. Inteligentemente, deixaram que fosse eu a escolher o novo lar – para dormir e receber carinhos, já se vê.

A única recomendação que sobrou foi a que sempre me fizeram, desde a minha chegada, ou seja, para continuar a não me aproximar dos pombos do Violeiro, disseminador de veneno que nos era destinado, só porque apreciávamos as suas tenras criaturas. Coisas de velho, que não atingiam sábios como eu. Afinal, ainda cá andava no 25 de Abril!
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domingo, 6 de maio de 2007

In Illo Tempore


Adorava dormir em colchão de palha, entre frescos e ásperos lençóis de linho, no quarto do fundo, a que se chegava passando pelo da frente, o dos meus tios, detentor de uma sacada repleta de vasos.
A casa era minhota em toda a sua traça. O espaço de habitação situava-se no andar de cima, com duas entradas servidas por íngreme escada, de degraus incertos e largos.
No primeiro patamar, de fronte para o quinteiro, acedia-se à cozinha, ampla e escura, sem janelas e com chaminé diminuta, que retinha mais do que libertava o fumo da lareira. Se servia na perfeição para defumar os enchidos e presuntos, também contribuiu fortemente para o grave problema de pulmões que atormentou o meu tio, praticamente até à sua morte.
Mais alguns degraus e assumia a entrada da sala de jantar, espaçosa e clara, com tecto de forro, ondulado e picotado por inúmeras marcas, que o tempo consolidou. Uma cama, normalmente destinada às visitas inesperadas ou mais consideradas, juntamente com um roupeiro, da mais fina madeira, não destoava, nem nos dias em que se jantava, de facto, ali – raridade muito apreciada, não obstante ser a cozinha bem mais acolhedora, sobretudo nos dias mais frios. Era servida por uma janela, com dois bancos de pedra, frente a frente, que possibilitavam, se essa fosse a vontade, momentos de cumplicidade, reservada aos que aí se enfrentassem.
Ao fundo, os referidos quartos que nos serviam, numa curva apertada que impedia a visão do mais recuado.
O piso inferior tinha cortes, uma por baixo dos quartos, onde normalmente se hospedava um cavalo, com outra interior, ao fundo, para o porco passar o dia. Fechada a porta e tapadas as frinchas com fetos, ficava o espaço livre do incómodo das moscas, donas de picadas tão dolorosas quanto sanguinárias.
Seguia-se a loja, com a caixa do cereal e do milho, as pipas do verde tinto, de sabor peculiar e incomparável, o pipo do vinagre – autêntica pólvora, que me agarrou definitivamente o paladar - a salgadeira, o presunto e as pás penduradas, tudo à volta da urdideira, sarilho enorme na sua função, sendo moldura da passagem quando descansava, fechado. À porta, o galinheiro da noite, no contraforte das escadas, só com uma pequena abertura, que se fechava com umas tábuas de madeira, seguras com cavacos encravados – protecção essencial contra as raposas, que a rede do galinheiro de dia nunca seria capaz de travar.
Logo após as escadas, quem vinha da costeira, ficava o lagar de pedra, duas vezes cheio nos anos de fartura, com a prensa e os utensílios da lavoura. Era aí que ficava o nicho da chave de casa, depositada sempre que todos saíssem, para longe. Doutro modo, a porta ficava ou toda aberta, ou encostada.
Mais uma corte, para acolher os bovinos, quando não havia segundo cavalo, situando-se, por cima e com entrada própria, o tear, onde a minha tia, rainha das tecedeiras de toda a região, construía mantas e cobertas como eu nunca vi, lá ou noutro lugar. Gostava particularmente das mantas de retalhos, que ela criava com maravilhosas combinações de cores e padrões, e das cobertas de linho, com o alvo algodão a desenhar motivos e figuras inesquecíveis. Ah, e as franjas, feitas num tear de bolso, em movimentos repetitivos, cantados por batimentos transformadores do gesto criador num centro de interesse que aprisionava o olhar.
Ficava concluída a casa pelo arrumo da madeira, contíguo ao tear, e, bem lá longe, também de madeira, pouco ortodoxa, mesmo algo insegura, ficava a retrete – nem se podia chamar de maneira diferente ao buraco na tábua, numa casota, com uma porta segura por um arame, uns bons metros para lá do edifício, para o não contaminar.
Os rituais eram deliciosos. Depois do almoço, o meu tio encostava as costas à porta da cozinha e deixava-se escorregar até ficar sentado na soleira, com uma caruma na boca, palitando preguiçosamente os dentes. Era a hora da sesta, sagrada, protectora do calor abrasador do verão minhoto, capaz de calar todos os sons e aplacar a mais ténue brisa.
As ordens eram claras – todos tínhamos que dormir umas duas horas, para fazer a digestão. Por isso, era obrigado a preparar a fuga, antes mesmo de entrar para almoçar. Dirigia-me à corte do cavalo e abria a porta, prendendo o cavalo à manjedoura. Se questionado, dizia que era tempo de ele ter alguma luz, pobre coitado. Até as moscas e os moscardos estavam recolhidos, por causa do calor, que diabo!
A porta, aberta, ficava com o topo ao nível do chão da sacada, logo prendia-a bem à parede, para ficar firme. Quando chegava a hora da sesta, ia até ao quarto e deitava-me. Alguns minutos depois ia à cozinha, pela porta que a ligava à sala, e espreitava o meu tio. Como sempre, já dormitava, acenando com a cabeça para ninguém. Voltava atrás, chegava-me à sacada e, passando o corpo para fora, descia pela porta da corte, correndo de imediato para longe de casa, ao encontro da total liberdade que os campos, as casas, as árvores e os rios da aldeia me dotavam.
Um sorriso meu, enigmático, respondia ao meu tio quando, à noite, com um olhar interrogativo, me dizia não ter percebido a minha saída. Estou convencido que, de facto, nunca conheceu a minha estratégia. Nos últimos anos, nem sequer usava a referida corte, o que muito me facilitou a vida.
Arrependo-me de algumas coisas que fiz. Não desta. Sei que, aos seus olhos, não teve grande importância. Ele sabia bem o quão importantes eram todos os segundos ali passados, para o menino da cidade que ele recebia, ano após ano, de braços abertos.